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quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Andamos a meter o nariz onde somos chamados


Recentemente, eu e a Natalina fomos convidados a fazer uma ilustração juntos, para integrar a Exposição comemorativa dos 15 anos da Operação Nariz Vermelho (ONV), num evento que irá integrar uma série de outros criadores, entre os quais: Afonso Cruz, Aires Mateus, Ana Biscaia, Anabela Dias, Andre da Loba Illustration, Carla Nazareth, Claudia Mestre e Anita, Goncalo Viana Illustration & Cartoon, Helena Zália, João Xavier Cardoso Andrade, José Emidio, José Guimarães, Mafalda Milhões, Margarida Botelho, Marina Palácio, Mark Parchow, Marta Madureira, Marta Torrão, Nuno Bettencourt, Nuno Markl, Pedro Seromenho e Sérgio Ribeiro, Rachel Caiano, Raúl Guridi, Rita Correia e Valter Hugo Mãe.

Esta exposição de ilustração enquadra-se numa exposição de arte contemporânea com curadoria de Luiza Teixeira de Freitas e João Fernandes e desenho de exposição do gabinete SIA Arquitectura + Aires Mateus, com o apoio da Administração do Porto de Lisboa (APL) e o Alto Patrocínio da Presidência da República. A exposição terá como tema central o humor e o palhaço e em paralelo e equilíbrio será contada a história da Operação Nariz Vermelho numa Linha do Tempo que destacará - através da fotografia, vídeo e ilustração mas também de objetos emblemáticos da arte do palhaço - os marcos principais da história da ONV.
Foi com um enorme sorriso nos lábios que abraçámos este convite, prestando a nossa humilde homenagem aos Médicos Palhaços, da Operação Nariz Vermelho, verdadeiros super-heróis porque têm a Missão mais bela e difícil do mundo... Ajudar as crianças a recuperar os sorrisos perdidos, sem perderem eles próprios os seus sorrisos. Ajudem-nos nesta demanda e soltem o palhaço que vive em vós. O mundo anda sério de mais.

No sábado pelas 11:00 horas, a Natalina Cóias irá fazer um pequeno workshop. No Domingo, à mesma hora, será a minha vez. Se quiserem inscrever as vossas crianças, podem saber mais informações aqui e  aqui.

A exposição irá decorrer de 14 de Outubro a 19 de Novembro, na Gare Marítima da Rocha Conde d’Óbidos, em Alcântara / Lisboa.


quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Obra + autor = 1

Natalina Cóias e AnnaLaura Cantone... duas lindas meninas em Óbidos.

A satisfação de descobrir que a obra e o autor casam na perfeição é directamente proporcional à desilusão de descobrir exatamente o contrário. Nesta matéria, confesso que já apanhei alguns baldes de água fria (felizmente poucos). Pessoalmente, por mais que me digam o contrário, não consigo separar os dois lados desta equação.

Neste caso em particular, tal como acontece com a Natalina Cóias, na AnnaLaura Cantone esses dois lados casam na perfeição. Aliás...  na verdade nem sequer são dois lados.

Há tanto, mas tanto em comum entre estas duas meninas que estaria aqui o resto da noite a escrever... A hora é tardia e eu prefiro que os mais atentos descubram aos poucos esta verdade através das suas obras.


Lavoro + autore = 1


La soddisfazione di scoprire che il lavoro e l'autore sposati nel perfezione è direttamente proporzionale alla delusione di scoprire l'esatto contrario. Devo confessare che già prese un paio di secchi di acqua fredda (per fortuna pochi). Personalmente, per quanto mi dica altrimenti, non riesco a separare i due lati di questa equazione.

In questo caso particolare, come con la Natalina Coias in AnnaLaura Cantone queste due squadre si sposano perfettamente. Infatti ... in realtà sono nemmeno due lati.

C'è così tanto, ma così tanto in comune tra queste due ragazze sarebbero qui il resto della notte a scrivere ... L'ora è tarda e preferisco che i più attenti scoprire poco a poco questa verità attraverso le sue opere.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

A melhor homenagem...













Hoje, 18 de Outubro, o meu filhote Miguel faz 10 anos... a décima parte de um século. É uma idade linda, deveras importante na vida de qualquer homem. Os psicólogos dão-lhe o nome técnico de "A fase em que um homem faz 10 anos".

Podia mostrar aqui o bolo lindo que a Natalina, mestra das artes e dos ofícios, lhe fez (e vou mostrá-lo... mas daqui a umas horitas), ou inventar uma imagem qualquer maluca envolvendo-o como modelo, aproveitando os últimos 2 ou 3 anos de colaboração em que ele ainda vai na minha conversa.

Poder até podia...

... mas não vou fazer nada disso.

A melhor homenagem que se pode fazer a um ser humano, é valorizar aquilo que nasce das suas mãos, das suas ideias, dos seus sonhos. E o Miguel é um sonhador / fazedor... ao contrário do pai, não se fica por devaneios nem dramas existenciais... sem dar cavaco a ninguém, pega na matéria em bruto, contempla-a de vários ângulos com aqueles olhos onde cabe a via láctea inteira, e vendo nela coisas que mais ninguém vê, transforma-a em objectos, criaturas mágicas, texturas que nós e os nossos limitados 5 sentidos conseguimos descodificar.

Dentro dele sopram mil ventos em mil direções. Frenéticos, descontrolados, barulhentos até mais não... Assustadores para ele e para nós. Mas um dia, sei que vai construir a vela perfeita para navegar no meio deste reboliço e descobrir finalmente que as forças que antes pareciam travá-lo, são exatamente as forças que o vão levar longe.

Parabéns filho... vida longa a todos nós para que possamos assistir às tuas vitórias.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Pais... esses superheróis







As Mães e os Pais são verdadeiros super-heróis. Com esta ilustração - feita para a capa da revista "A Nossa Gravidez" - quis prestar uma homenagem a esse lado Marvel da maternidade e paternidade, que se esconde por detrás das olheiras e dos olhos raiados de sangue, das manchas de papa nos ombros, nas noites mal-dormidas, das canções de embalar desafinadas e ensonadas, dos arrotos e das cólicas, das fraldas apocalíticas, dos primeiros dias de aulas, dos terrores nocturnos, da primeira saída à noite, da primeira namorada, do primeiro desgosto de amor, das noites em que ficamos sem saber o que fazer de tão vazia e arrumada que está a casa sem eles... de um infinito universo de pequenos nadas que no fim, são tudo aquilo que um dia vamos ter saudades.
A todos vocês, que tiveram tomates e úteros e coragem para enfrentar pesados processos de adoção... a todos vocês que no mais belo gesto de altruísmo perceberam que nestas coisas mais do que a biologia, o que conta é a cardiologia... a todos vocês... Obrigado por existirem. Daqui a 1.000.000 de anos, se o Ser Humano ainda andar por cá, podem ter a certeza que algures na hélice do seu DNA, bem escondido num mar de nucleótidos, andará a flutuar um átomo de vocês.



Parents and superheroes

Mothers and Fathers are true superheroes. With this illustration - made for the cover of "Our Pregnancy" magazine - i wanted to pay tribute to that Marvel's side of maternity and paternity, hiding behind dark circles and bloodshot eyes blood, the pope spots on the shoulders, in poorly slept nights, the lullabies tune and sleepy, the burping and cramps, the apocalyptic diapers, the first days of school, the night terrors, the first night out, the first girlfriend, the first heartbreak, nights where we do not know what to do in a home so empty and tidy without them ... an infinite universe made of little things that, in the end, we will missed so much.
To all of you, who had balls and uteruses and courage to face heavy adoption processes ... to all of you that, in the most beautiful gesture of altruism, realized that these things are less biology and more cardiology ... to all of you ... Thank you for existing. In a one million years, if the human being still walk around here, you can be sure that somewhere in the helix of his DNA, well hidden in a sea of ​​nucleotides, an atom of you will float.

Inspirações inusitadas





Não acredito na inspiração por si só. Acredito, isso sim, que esse momento Eureka! o nasce no seio de 1000 tempestades cerebrais que ocorrem a todo o instante, à velocidade da luz. Picasso afirmou que, se um dia se cruzasse com a inspiração, esta iria apanhá-lo a trabalhar. E eu, humilde mortal, concordo e assino por baixo.

No entanto, de vez em quando tenho de rever o meu sistema de crenças... há momentos únicos em que um gajo - se estiver atento e em silêncio - sente a leve brisa que as musas e as tágides produzem quando esvoaçam por perto... Ou talvez seja um Pintarriscos, essa pequena ave (mítica?) que tantos humanos inspirou. Nessas alturas, o melhor que há a fazer é abandonar as convicções, especialmente as mais científicas, e correr para o primeiro estirador ou bloco de desenho que encontrar.  Foi exatamente isso que fiz quando um Portugal humilde venceu uma França chauvinista por 0-1 (marcado por Eder), na final do Euro2016. Nesse dia mágico, véspera do meu 46º aniversário, fui subitamente acometido por uma vontade irresistível de criar algo que celebrasse tão glorioso momento. Em meia dúzia de minutos, sairam várias imagens, entre as quais uma que fez cruzamento do nosso muito amado galo de Barcelos com o famoso e gigante Le Coq Sportif. O que eu não estava à espera, é que essa imagem se tornasse viral. De repente, sem dar por isso, a minha versão remix dos 2 galos alcançou 668.000 pessoas e  foi partilhado quase 10.000 vezes.

Uau! Sem palavras!



Unusual Inspirations

I do not believe in inspiration standalone. I believe, instead, that Eureka! moments born in the middle of 1000 brain storms that occur all the time at the speed of light. Picasso said that if one day inspiration find him, she would take him working. And I, mortal being, i agree and sign below.

However, from time to time I have to review my belief system. In that special moments, f you are attentive and silent, you will feel the light breeze that the muses and the Tagus nymphs produce when flit around ... Or perhaps it will be a Pintarriscos, this little bird (mythical?) that have inspired many humans. At such times, the best thing to do is running to the first drawing board or drawing pad. That's exactly what I did when a humble Portugal win a chauvinistic France by 0-1 in the final of Euro2016. In this magical day, the day before my 46th birthday, I was suddenly seized by an irresistible urge to create something that celebrated that glorious moment. In half a dozen minutes, i have produced several pictures, including one that mix our beloved rooster of Barcelos with the famous Le Coq Sportif. What I did not expect is that this image became viral. Suddenly, without i realizing it, my remix of the 2 roosters reached 668,000 people and was shared almost 10,000 times.

Wow! I'm speechless!


sexta-feira, 22 de abril de 2016

Todos nós morremos, mas nem todos nós vivemos.


Nos últimos tempos, por uma série de acontecimentos profundamente marcantes na minha vida, uma pequena pergunta faiscou dentro de mim... do que é que nos arrependemos quando estamos a viver a nossa última hora na terra? O que é que nos passa pela cabeça quando sabemos que não vamos ter um "Daqui a pouco (...)", ou um "Amanhã, quem sabe, talvez (...)", ou "Um dia destes (....)", ou resumindo,

quando descobrimos que não existirão mais reticências nossa vida?

Não serão os erros que cometemos, nem as palavras que dissemos, mesmo sendo duras. Não será o dinheiro que gastámos ou que não ganhámos. Nada disso...

Serão as decisões que não tomámos, os caminhos que não percorremos, as palavras de Amor que não dissemos, os abraços com que não envolvemos, os medos que não vencemos, os beijos que não demos, os crepúsculos que não aplaudimos, as estrelas que nunca reparámos, o Amor que não fizemos, as lágrimas que não chorámos, os segredos que não contámos, a ajuda que não demos, a ajuda que não pedimos, os laços que não fortalecemos, os nós que não desembaraçamos, os sorrisos que não desenhámos... A Vida que não vivemos.

Todos nós morremos, mas nem todos nós vivemos. Eu não quero ser uma dessas pessoas. Quero que a Árvore da Minha Vida não seja uma Bonsai atrofiada dentro de um vaso que a miniaturiza e a mata aos poucos... quero que cresça e se torne numa sequoia com 1000 metros, 5000 metros, 10000 metros de altura. Porque não? Quero que a minha vida volte a ter reticências. Muitas.

Tenho 45 anos, não me quero auto-limitar. Quero voltar a ter aquele sentimento que tinha à 20 anos atrás... que à minha frente e a partir do centro de mim, 1000 caminhos irradiam. E que todos eles se cruzam e entrelaçam e se reforçam. E que no fim não serão 1000 caminhos diferentes, mas sim uma mandala onde o Todo será sempre infinitamente maior do que a soma das suas partes.

Quero que não seja eu a ter um Sonho... mas sim o Sonho a ter-me a mim.



Fui para os bosques porque desejava deliberadamente viver, enfrentar apenas os factos essenciais da vida, e ver se poderia aprender tudo o que ela tinha para ensinar.
Queria viver profundamente e sugar todo o tutano da vida, viver com tanto vigor que conseguisse aniquilar tudo o que não fosse vida, empurrar a vida contra uma esquina; reduzi-la aos seus termos mais humildes…para não quando morrer, descobrir que não tinha vivido!


Obrigado Henry Thoreau.


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Sobre o infinito e a infinita caganice



Nos últimos tempos não tenho vindo a este meu querido blogue.  As razões são muitas, que se prendem essencialmente com a saúde - que não tem sido das melhores - e também porque tenho andado com a telha... e acima de tudo, confesso, bastante desiludido com a natureza humana. A distância entre aquilo que projetamos nos outros e a crueza da realidade é, por vezes, infinita. O problema está em nós, e não nos outros... porque somos nós que criamos mentalmente expectativas para com aqueles que nos rodeiam, que sejam boas ou más, são muitas vezes erradas. No meu caso, que sou o estúpido de um sonhador que ainda acredita em contos de fadas, são mais as vezes em que estou errado, do que as que acerto. Sou aquilo que o meu filho mais pequeno chama de TÓTÓ. Um inadaptado ao estado actual do mundo, o espírito dos tempos também conhecido como Zeitgeist.

Ora bem, inspirado numa conferência que assisti há poucos dias no Youtube, decidi escrever um pequeno manual para acabar de vez com a caganice de muitos humanos com um botão de umbigo do tamanho do sistema solar, quando acreditam que os seus pontos de vista, as suas ideias, as suas opções de vida, os seus julgamentos, as suas verdades, as suas conclusões, as suas atitudes são superiores às dos outros. Chamemos-lhe, por uma questão de comodidade "Breve manual contra a caganice, para tótós": Ora aqui vai:

a) Há 15.000.000.000 de anos deu-se um fenómeno - chamemos-lhe Big Bang - que num infinitamente pequeno instante expandiu uma quantidade infinitamente grande de energia, cujo arrefecimento e a conglomeração deu origem ao que identificamos hoje como o nosso universo, que findo este tempo todo, continua a expandir-se. Uma grande explosão, portanto.

b) A ciência calcula que no Universo existam 200.000.000.000 de galáxias, o que é uma coisa estranha, eu sei. Se o universo é infinito, não deveria haver um número infinito de galáxias?

c) Uma dessas galáxias é a nossa querida Via Láctea, que nem sequer é uma galáxia grande… digamos que tem apenas 100.000.000.000 de estrelas. Nada de especial;

d) Uma dessas estrelas é o nosso ameno sol… aquele disco amarelo que vemos no nosso céu e que nos aquece a alma e o coração. Mas na verdade, o nosso sol é uma estrela humilde, de 5ª categoria, também conhecida como estrela-anã. Eu sei, eu sei, uma desilusão. Mas continua a ser um belo de um sol. Pequenino, pequenino, mas trabalhador;

e) Em torno da nossa estrela giram como piões, 9 massas planetárias, umas maiores, outras nem por isso. Uma delas é um modesto pontinho azul-pálido chamado Terra… o nosso lar, mas que tem tanto mar que se podia chamar Planeta Água;

f) A ciência acredita que no nosso minúsculo planeta existem cerca de 30.000.000 de espécies, das quais ainda só classificámos cerca de 3.000.000;

g) Uma dessas espécies somos nós. Actualmente existem aproximadamente 7.000.000.000 de seres humanos;

h) Um desses seres humanos sou eu. Outro, és tu, que estás aí desse lado do ecrã, com uma paciência infinita para ler posts chatos;

i) Tu e eu, todos nós, somos como um universo. Dentro de cada um de nós existem, assim por alto, cerca de 37.200.000.000.000 de células, que ao contrário dos seres humanos que as a transportam, vivem em harmonia (se não estivermos doentes) para que possamos existir e transformar a nossa curta vida numa viagem que valha a pena. Se pelo caminho, conseguirmos que que a viagem daqueles que no rodeia também valha a pena, atingimos o nosso potencial máximo de glória humana, e com isso ganhamos um bom Karma, que é capital que convém sempre ter em quantidade generosas, e desse modo garantir que não reencarnaremos como mosca da fruta num laboratório de pesquisa médica (Não imaginam o que les fazem com as moscas da fruta);

j) Já agora, e porque estou no domínio do nosso corpo / universo pessoal, ficam a saber que ainda mais por alto, um indivíduo com 70 kg terá um número estimado de 7.000.000.000.000.000.000.000.000.000 de átomos. Podia usar a notação cientifica... mas não seria a mesma coisa;

k) Desses átomos, 4.700.000.000.000.000.000.000.000.000 serão de hidrogénio, que tem um protão e um electrão cada. 1.800.000.000.000.000.000.000.000.000 serão átomos de oxigénio, com 8 protões, 8 neutrões and 8 electrões cada. E por fim, 700.000.000.000.000.000.000.000.000 serão átomos de carbono, com 6 protões, 6 neutrões e 6 electrões. Fazendo esta simpática conta, chegamos aos seguintes números redondinhos: 23.000.000.000.000.000.000.000.000.000 de protões, 18.000.000.000.000.000.000.000.000.000 de neutrões e 23.000.000.000.000.000.000.000.000.000 de electrões. Espero não me ter enganado muito nas contas. Com mais ou menos um zero, digamos que é um número assim a dar para o grande;

l) Abaixo desta escala já nem me atrevo a entrar. Acabaria os meus dias a babar-me numa sala almofadada, vestido com uma camisola daqueles modelitos que nos prendem os braços atrás e não nos deixam coçar o cucuruto. Tenho outros planos para a minha vida.

Ou seja, resumindo e concluindo… há montes de gente que em pleno século XXI acredita que todo este recreio cósmico feito de zeros à direita foi construído por um Deus - que só pode ser infinitamente Burro em matéria de compreensão e aplicação do binómio custo / benefício - para puro deleite e usufruto de nós, humanos, a espécie mais importante de todo o universo e arredores, que vivemos aqui nesta pálida e humilde bolinha azul. Pior ainda, há muitas pessoas que pensam que tudo isto foi feito especialmente para que ELAS em particular, os seres mais importantes de todo o universo e arredores, existam aqui, com todo o dinheiro, ou o sotaque, ou a cor de pele, ou a religião, ou a profissão, ou o status quo, ou o partido, ou as orientações sexuais, ou um grande etecétera, que têm.

Assim de repente, não acham que é um bocadinho de caganice a mais? Ou será só impressão minha?

Get a life. Live and let live. E parem de viver a vida dos outros. A vossa vida é preciosa de mais para tamanho desperdício. Não façam com que todos estes zeros à direita passem para a vossa esquerda. Seria uma perda de tempo e de energia indesculpável.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Hoje terias 69 anos



A minha Mãe, que tinha o nome mais enigmático do mundo, faria hoje 69 anos. Há quase 5 meses que se fundiu com o Infinit∞, e o meu coração continua aos meus pés, despedaçado em 1000 cacos. Quero começar a colar os 999 fragmentos cardíacos que me restam, sabendo que jamais conseguirei reconstruir o puzzle, porque faltará para sempre uma peça. Esse é o preço de estarmos vivos...  assistirmos ao contínuo desaparecimento daqueles que amamos. Mas ainda não consegui sequer começar essa árdua tarefa... Há demasiadas coisas que têm de ser clarificadas nesta tragédia de contornos muito desfocados. Demasiadas pontas soltas que nos vergastam o espírito, puxadas e empurradas ao ritmo dos ventos desta tempestade que ainda não passou. Demasiadas pessoas e organismos que não fizeram a sua parte, ou porque não quiseram, ou porque esqueceram o Juramento de Hipócrates, ou porque não puderam (que vai dar ao mesmo, porque há sempre o lívre arbítrio... pelo menos eu ainda acredito nisso) encurralados que foram por políticas de austeridade desumanas contra aqueles a quem um dia um "digníssimo" deputado do PSD chamou de Peste Grisalha (se mesmo assim não acreditam, podem ler o maldito artigo aqui, pese o facto de todos os esforços terem sido feitos para fazer desaparecê-lo... Lembrem-se dos conselhos que dão aos vosso filhos, tudo o que cai na net, fica lá para sempre) e que cada vez mais são um fardo para esta merda de sociedade. Desculpem a crueza da palavra, mas acreditem, é a mais suave que encontrei para definir esta coisa indefinível em que nos tornámos, porque até nas tribos mais "atrasadas", "pouco evoluídas" e "primitivas", que ainda vão resistindo a muito custo à imparável "evolução" da nossa sociedade (as aspas não são incidentais), sabem que os anciãos são, tal como os mais jovens, uma mais-valia incontornável na sobrevivência, no fortalecimento do tecido social e na sustentabilidade de uma sociedade. Os primeiros pela sensatez que a experiência de vida lhes deu, fonte de uma vivência que deveria sempre ser tida em conta nem que seja para depois ser melhorada, aprimorada, reinterpretada pelos segundos, cuja coragem e força anímica os torna ávidos de enfrentar novos desafios e quebrar paradigmas da geração anterior. É na dinâmica desta bipolaridade que encontraremos um desenvolvimento social sustentável. Ao fim e ao cabo, cada nova geração olha para o mundo sentada no ombros de gigantes, que não sai mais do que todos aqueles que os precederam.


Mas um dia, quem sabe, se tudo isto não irá ser clarificado.

Parabéns Mãe... onde quer que estejas. Isso não é importante porque no Infinit∞, todos os pontos são o seu centro, e por isso mesmo, estarás infinitamente perto de mim.




sábado, 26 de dezembro de 2015

Que o próximo ano seja 12x melhor que o melhor ano das vossas vidas





Este ano vou plagiar. Aproveito o belo bolo feito pela empresa "Bolo Meu" (http://bolomeu.blogspot.pt) a partir do belíssimo livro da Natalina Coias e da Clara Cunha, "Feliz Natal Lobo Mau", para vos desejar a todos um maravilhoso Natal, e que o ano que vem seja 12x melhor do que o melhor ano das vossas vidas (se há coisa que não gosto de regatear é nos sonhos... se o fizermos, no fim a coisa insípida)..

sábado, 28 de novembro de 2015

"Life is like a book son. And every book has an end."


"Life is like a book son. And every book has an end. No matter how much you like that book you will get to the last page and it will end. No book is complete without its end. And once you get there, only when you read the last words, will you see how good the book is."
"Only when you accept that one day you'll die can you let go and make the best out of your life. And that's the big secret. That's the miracle"

O que posso eu dizer sobre esta novela gráfica? Que há livros assim, que chegam no momento perfeito com o estado de espírito perfeito. Quando isto acontece, acredito que não fomos nós que escolhemos o livro, mas sim o livro que nos escolheu a nós. Não tenho uma religião, mas acredito que em cada instante da nossa vida, o universo nos confronta apenas com aquilo que de alguma forma conseguimos lidar. E este livro foi mesmo isso... não poderia ter vindo em melhor hora da minha vida. Uma experiência transcendental, dificilmente traduzível por palavras. Aliás, se o fosse, seria "meramente" mais um livro.

Se puderem, não deixem de o ler. Já faz parte de uma biblioteca muito especial que só existe no meu coração.


What can I say about this graphic novel? That there are few books like this, arriving in perfect time with the perfect frame of mind. When this happens, I believe that we didn't chose the book, but the book choose us. I have no religion, but I believe that in every moment of our life, the universe confronts us with just what we somehow, can manage. And this book is exactly like this... it couldn't have come at a better time in my life. A transcendental experience, hardly translatable into words. In fact, if it were, it would be "merely" another book.
This book is already part of a very exclusive library that exists only in my heart.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Luz e Escuridão



O pré-lançamento deste livro já tinha ocorrido no Fólio - Festival Internacional Literário de Óbidos, no passado dia 24 de Outubro. Exclusivamente nesse dia, foi vendido a todos aqueles que por lá apareceram.

O lançamento oficial do livro ocorreu este fim de semana, na lindíssima livraria Ler Devagar, na LX Factory. A apresentação ficou a cargo do inesquecível e carismático José Barata Moura, que dispensa qualquer apresentação.

Este livro é muito importante para mim. Todos os livros que até agora ilustrei o foram, mas este em particular, tocou-me de uma forma muito pessoal e visceral. E porquê?
  1. Porque desde a primeira letra da primeira linha do primeiro parágrafo que me identifiquei totalmente com o personagem principal, e com o seu mundo simultaneamente escuro e luminoso. Chama-se Óscar, e é um ser imperfeito (diz o David Machado que tem um fascínio por seres imperfeitos... descubram vocês mesmos nos belos livros dele), mas podia chamar-se PêGuê, que também é um ser imperfeito. Quem me conhece sabe que vivo com um pé em cada um destes mundos opostos que se complementam, que não vivem um sem o outro. Como tudo na vida, ter os pés nestas extremidades tem um lado bom e um lado mau. O bom, é porque é uma benção que nos torna fortes, criativos e por vezes em combustão expontânea como uma estrela, uma supernova. O mau, porque é uma maldição que nos torna frágeis, melancólicos e por vezes, tão escuros como um Buraco Negro de onde - dizem os astrofísicos - nem a luz escapa. Algures no meio andará a virtude  - o chamado "Caminho do Meio", pelos Budistas - que eu raramente conheci. Infelizmente, há muito que passei o meu prazo de garantia... já não posso ser devolvido à fábrica para ajustes.
  2. Porque nunca perdi o olhar infantil de uma criança que pela primeira vez olha para cima, para lá dos seus pais, e fica para sempre hipnotizada pelo oceano infindável de luzinhas intermitentes que nos cobre a cabeça desde o momento em que ainda éramos seres unicelulares a flutuar numa sopa caótica feita de vida, há uns meros milhões de anos. 
  3. Porque é sempre bom trabalhar com um escritor como o David Machado. Os nossos caminhos cruzaram-se uma vez mais - sem tubarões à mistura - e sei que vai voltar a acontecer, sabe-se lá como, e em que formato.
  4. Porque dediquei este livro à minha mãe, "(...) que se desmaterializou e se transformou numa linda estrela. Há luzes que jamais se apagam.". Desculpem-me Carl Sagan e Katsushika Hokusai, pela alteração de última hora, mas infelizmente, e pelas piores razões, tive de o fazer.


Este livro é todo para ti,
Mãe,
onde quer que estejas.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

O Espirito do Vinho




Com tudo o que aconteceu nestes últimos tempos, são muitos os momentos em que me sinto lá em baixo, deprimido, triste e sem grande força anímica para criar algo que seja o oposto do inverno interior que me tem fustigado. Não é fácil sair desse estado de torpor... muitas vezes não o consigo. Mas quando o consigo, entro num estado de leveza tal que evito abrir janelas cá em casa, não vá ser arrastado pela pouca brisa deste novembro ensolarado que está a acontecer lá fora. Os pensamentos envoltos numa neblina pegadiça ficam lá para trás, e sinto um vazio bom dentro de mim. Silencioso. Apaziguador. Leve com um dente de leão ao vento.

Não sei como é que vocês lidam com estes momento menos bons da vida. Comigo, o segredo está no sujar das mãos. Quanto mais sujo as mãos, mais leve me sinto. O Paulo Etéreo ergue-se lentamente, muito lentamente, deixando para trás o Paulo Material, preso ao chão porque atualmente a sua matéria anda um pouco mais densa do que o desejável. Se eu fosse seguidor do espiritismo professado por Allan Kardec e Madame Blavatsky, este seria o momento em que diria que estes dois Paulos mantêm-se ligados entre si por um cordão "umbilical" prateado. Mas não... lamento desiludir os espíritas nesta matéria, mas aquilo que une o meu lado etéreo ao meu lado material é exactamente a sujidade que tenho nas mãos. A sujidade da cores das tintas. A sujidade dos carvões. A sujidade dos lápis de cera e dos pastéis. A sujidade que deixa rasto nos meus diários gráficos... trilhos feitos de impressões digitais que mais tarde me guiarão até aos sentimentos e às emoções que os produziram. Mesmo quando ilustro em ambiente digital, há um universo de esboços preparatórios nos meus cadernos que me deixam as mãos negras como a mais negra noite.

Curioso, agora que penso nisso... acabei de descobrir inadvertidamente que há um outro indicador nos meus esboços que me ajudam a traduzir a minha geografia emocional do momento: o grau de sujidade e de linhas sobrepostas, que se cruzam e se enleiam entre si até encontrarem aquilo que procuro. Ou seja... em bom português, quanto mais porcalhão, confuso e "peludo" (como diria o meu grande mestre, o arquiteto Miguel Mira, professor de desenho da faculdade que me ajudou a destruir todas as tretas que me foram transmitidas durante 12 anos de escola) é um esboço produzido por mim, mais denso e pesado me sinto no momento em que o fiz. Mais energia precisei para atingir a leveza que me salva das garras das tristeza. Tem lógica... os foguetões precisam de uma quantidade brutal de combustível para vencer a força da gravidade e o peso da atmosfera. De outro modo, não passam de foguetes nas festas de Agosto.

Portanto... resumindo, para mim tudo se resume a vencer o torpor e a inércia da tristeza, e sujar as mãos com um qualquer material que sirva para desenhar, pintar, garatujar ou borrar. Esse é o combustível que me ajudará a vencer a minha gravidade, e é dentro dessa lógica não newtoniana que ultimamente tenho andado a fazer experiências cromáticas com vinho, e por isso mesmo a sujar as mãos, digamos, de uma forma mais etílica. A boa e doce vinhaça portuguesa, que num acto de loucura, vai ser para mim um material de desenho e pintura durante um evento em que irei participar em Dezembro. Ando por isso em testes cromáticos com vários vinhos, para já de várias regiões, mais tarde de uma só. Testes com vinhos saídos da garrafa. Testes com vinhos reduzidos com e sem aditivos naturais por mim introduzidos. Tudo serve para descobrir as potencialidades cromáticas vinícolas (e não só), procurando deste modo conjurar o Espirito do Vinho, que espero me ajude neste desafio / loucura  em que aceitei participar.


E o mais giro disto tudo... não é todos os dias que podemos beber o material de pintura.





terça-feira, 4 de agosto de 2015

O Meu Chão / My Ground


Nasci há 45 anos nesta casa, onde os meus pais ainda moram. Foram incontáveis as horas que passei a brincar neste chão de cozinha. Nele vi paisagens singulares, estradas labirínticas e quarteirões de cidades. Nos buracos deste velho chão explorei crateras de planetas longínquos, e nas suas juntas vi carris por onde os meus comboios de berlindes deslizavam cuidadosamente para não descarrilar. Convivi com este chão dia e noite, durante 28 anos. Quase já nem dava por ele, até hoje, quando o olhei através da lente do meu telemóvel. Por um breve instante, vi-o pela primeira vez, como quando era criança... porque somos crianças enquanto temos a capacidade de ver, repetidamente, as coisas que nos rodeiam e que nos são familiares, pela primeira vez.

Quando quero descobrir os erros de uma ilustração ou um desenho no qual estou a trabalhar, observo-o através de um espelho. Nesse mundo invertido, o nosso cérebro viciado é enganado e tudo salta à vista com uma frescura e uma intensidade arrebatadoras.

Com o mundo que nos rodeia, talvez possamos fazer o mesmo... e quem sabe, por uns breves momentos, possamos ser crianças outra vez.

I was born 45 years ago in this house, where my parents still live. I spent countless hours playing on this kitchen floor. On it, I saw unique landscapes, mazy roads and blocks of cities. In the holes of this old ground I explored the craters of distant planets, and train made of marbles slid carefully on the rails of his joints for not derail. I lived with this ground day and night, for 28 years. I never looked it with real attention until this day, when I observed it through my cell phone lens. For a brief moment, I saw it for the first time, such as when i was a child ... because we are children while we have the ability to see, repeatedly, things that surround us and which we are familiar, for the first time.

When I want to discover the errors of an illustration or a drawing in which I am working, I observe it through a mirror. In this inverted world, our addicted brain is tricked and everything stands out with a freshness and sweeping intensity.

With the world around us, maybe we can do the same ... and maybe for a few brief moments, we may be children again.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Puro Prazer / Pure Pleasure









Há de facto muito poucos momentos que me dêem mais prazer e felicidade do que ver os meus filhos a brincarem com a Skye.

There are very few moments that give me more pleasure and happiness than to see my little kids playing with Skye.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Um novo livro ilustrado pela Natalina





















Chama-se "O País da Roupa". A história é da autoria de Maria de Lourdes Soares e foi editado pela Editora Paulinas.

E o que posso dizer sobre este livro?

Bom... posso dizer que as ilustrações foram totalmente, e quando digo totalmente... é mesmo



TOTALMENTE 


executadas com a técnica de corte e costura. É isso mesmo... uma salada russa portuguesa feita com linhas, pespontos, alinhavos, agulha, dedal, máquina Singer, ponto cruz, panos, botões, fechos, colchetes e alfinetes. De facto, depois deste livro a Natalina já não é ilustradora... é alfaiate.

O resultado ficou um espectáculo de se ver e de se tocar.




domingo, 14 de junho de 2015

Um luto de 1000 cores

"Poema de 1000 cores para que uma amiga se cure depressa"
Por Paulo Galindro
Técnica mista sobre MDF
Março de 2010



A Manuela no atelier da nossa querida amiga Mariola Ladowska,
num momento de felicidade plena, há umas semanas atrás

Mesmo quando tudo já parecia perdido,
encontrou - nem imagino onde - força anímica para começar uma nova tela



A morte é a curva da estrada,
Morrer é só não ser visto.
Se escuto, eu te oiço a passada
Existir como eu existo.

A terra é feita de céu.
A mentira não tem ninho.
Nunca ninguém se perdeu.
Tudo é verdade e caminho.

Fernando Pessoa



Este vai ser um post doloroso, daqueles que dói bem fundo escrever. Mas ao fazê-lo, quero de alguma forma operar dentro de mim o processo alquímico de transformar o chumbo da dor da ausência no ouro da aceitação de que o ciclo da vida é mesmo assim, e que tudo acontece como deve acontecer. E que quando tudo acontece como deve acontecer, está tudo bem, e isso é bom.


Quero falar-vos de uma grande, grande amiga. Na verdade não é a primeira vez que o faço... já noutra altura o fiz, preservando no entanto o seu anonimato sob a forma de um glorioso M maiúsculo, porque a ética e a intuição assim mo ditaram no momento.

Mas hoje... hoje quero falar-vos alto e a bom som da MANUELA. E não, as maiúsculas a as cores não são acidentais. Não encontro, de momento, outra forma mais efectiva e afectiva de falar de uma pessoa que me é maiúscula e superlativa, do que carregar na tecla Caps Lock sempre que a ela me referir.

A MANUELA gostava de arte. Não como mera observadora, que a MANUELA nunca foi de ficar de fora aquilo que gostava. Como em tudo na vida, a MANUELA mergulhou de cabeça na arte, e em todas as suas expressões... tudo serviu para pôr cá fora o arco-íris que vivia dentro dela.

A MANUELA adorava a música e os livros. E acima de tudo, vibrava com os silêncios entre as notas e os espaços entre as palavras. Porque é aí que se escondem tesouros inomináveis.

A MANUELA sabia amar como ninguém a família e os amigos, a quem nunca poupava palavras de conforto e de aconchego, mesmo quando, tantas vezes, cortinas de veludo vermelho ameaçavam encerrar o espectáculo da sua vida.

A MANUELA também amava assaralhopadamente (haverá outra forma de amar) os animais, especialmente aqueles que não se podem defender do mais cruel de todos eles. Se na sua casa viviam gatos e cães - muitas vezes tirados da rua - em sonora harmonia, no seu coração vivia uma Arca de Noé inteirinha, botes salva-vidas e âncora incluídos.

Inconscientemente, todos os que rodeavam a MANUELA (e eram muitos, que por ela se sentiam atraídos tal como uma borboleta se sente atraída por uma fonte de luz) intuíam de algum modo que estavam perante um Espírito antigo, sábio, portador de uma Luz e de um Conhecimento só acessível aqueles que por cá andam há muito, muito tempo. Gosto de pensar nela como um Boddisatva... aquele(a) que se recusa a Avançar enquanto ainda existir alguém que fique para trás.

A MANUELA foi uma guerreira que durante anos lutou contra um assassino silencioso que, alguém num dia pouco inspirado apelidou injustamente de Câncer... caranguejo em latim. Sempre senti que há algo de irónico em se usar tão maravilhosa manifestação de vida para se designar uma maldita doença que nos corrói a força vital. Mas enfim... quem sou eu para pôr em causa opções destas. Embarquemos então nessa metáfora. A MANUELA lutou corajosamente contra um monstro que fechou as tenazes em torno do seu corpo, com a firme intenção de nunca mais a largar. Contudo, durante essa luta feroz, implacável e desigual, a MANUELA jamais perdeu a força imparável do seu sorriso luminoso, o seu olhar sensível para a Beleza Interior dos outros e um sentido de humor perspicaz e afinado ao milímetro. Essas foram as suas derradeiras armas. As armas com que ganhou muitas batalhas. Sabem... vezes sem conta, tive o privilégio de a ver a desferir uns valentes xutos e pontapés nesse monstro invisível. Por vezes pela força das suas palavras, muitas vezes pela força dos seus gestos corajosos e desconcertantes.

"Não te preocupes amigo, que ainda não carimbei o passaporte! Se a morte pensa que me vai levar sem ter muito trabalho, está muito enganada!"

... uma das frases que dela mais ouvi nos últimos dias, quando lhe perguntava como se estava a sentir, entre emplastros de morfina e muitos outros medicamentos que nos subtraem da dor, mas também do sentir da vida.

Na passada quinta-feira, 11 de Junho, durante a noite, e após uma semana sem fim de infindável sofrimento, a MANUELA finalmente "carimbou o seu passaporte" para a Grande Viagem. Não sem antes todos aqueles que a amavam se despedirem condignamente. Serenamente. Como deveria ser sempre.

São assim as pessoas-farol. Inesquecíveis.

Não te digo adeus, Amiga, porque sei que agora, mais do que nunca, estás em todo o lado. E se estás em todo o lado, estás junto a nós.

Como disse Carl Sagan no seu belo "Cosmos", diante da vastidão do espaço e da imensidade do tempo, foi uma alegria para mim ter partilhado um planeta e uma época contigo.




Obrigado.








quinta-feira, 23 de outubro de 2014

An ukulele makes your life happier










Por Paulo Galindro
Técnica mista sobre caixa de ukulele em madeira Koa
Outubro e 2014
 




Há muito tempo que já andava a conspirar uma tatuagem para o meu ukulele. Há uns dias atrás aproveitei um estado de espírito um pouco mais negro, e decidi acabar de vez com a procrastinação. Posso por isso mesmo dizer que este foi um projecto com fins muito terapêuticos.

O resultado?

Uma singela homenagem a um grande ilustrador japonês do século XVIII / XIX, que muito admiro... Chama-se Katsushika Hokusai, e foi o autor de algumas das mais belas e icónicas imagens de ondas (e não só... façam uma pesquisa e deliciem-se com as maravilhas que vão encontrar). A imagem que representei na frente do ukulele ("A grande onda de Kanagawa") é uma daquelas imagens conhecida mundialmente, e que chegou mesmo a inspirar o design do famoso símbolo da marca Quiksilver.

Gostaria de sublinhar que não foi minha intenção reproduzir com exactidão estas obras... muito pelo contrário, trata-se de uma interpretação pessoal mais ou menos subtil, que teve como ponto de partida a harmonização das imagens com as formas curvilíneas do ukulele, e com o facto de eu ser canhoto. Aliás, essa é a razão pela qual a onda na face do ukulele é espelhada. O mérito aqui é do meu digníssimo colega Hokusai, que há 200 anos fez beleza com as mãos. Eu limitei-me a sentar-me nos ombros de um gigante. Restou-me o esforço e o cuidado de não envergonhar o trabalho dele com a minha homenagem.








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