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segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Melinda, o Gatuno e o extraterrestre








Vou contar-lhes uma história:

Melinda é uma menina que mora algures na Suiça. Tem 12 anos e sofre de uma doença chamada Disfasia, por sinal bem grave. Esta menina tem por isso uma enorme dificuldade em articular e compreender a linguagem... coisas tão simples como entender ou articular frases ou uma qualquer rima estão vedadas a Melinda. Face a esta limitação, ela faz aquilo que qualquer ser faz quando não compreende e não se sente compreendido... fecha-se no centro de si mesmo.

Melinda está a fazer terapia com uma grande amiga minha, Sylviane Rigolet que tudo tem feito para criar com ela laços de comunicação, de entendimento e de ternura.

Há uns tempos atrás, enviei à Sylviane todos os livros que já publiquei até hoje, porque ela trabalha de forma aprofundada o livro e a leitura com crianças suíças e portuguesas.
Um desses livros foi a "O Gato Gatuno e o extraterrestre trombudo", ilustrado por mim sobre um texto de Maria João Lopes. Nas guardas desse livro coloquei 3 fotografias que explicam de forma sucinta os 3 passos da técnica que utilizei para ilustrar esse livro. Melinda viu essas fotografias, compreendeu-as como ninguém o tinha feito até hoje, e desde esse dia, nunca mais deixou de se expressar através dessa mesma técnica.

As imagens que acima apresento são algumas das interpretações muito pessoais que ela produziu a partir das ilustrações do livro. E é a partir desta enorme ponte que se está a construir, que Melinda tem vindo a mostrar grandes progressos para vencer a sua limitação.

Caramba... Não há prémio, reconhecimento, fama, exposição, número de livros ilustrados ou quantidade de exemplares vendidos que chegue a uma coisa destas.

Obrigado Melinda, por - sem te conhecer pessoalmente - estares a cruzar a minha vida desta forma tão intensa.

E mais não direi, porque me faltam palavras e sobram silêncios.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

A arte do Graffiti















Há graffitis que me arrepiam e emocionam... este é um deles. No Barreiro, mais precisamente na Avenida Escola dos Fuzileiros Navais.


segunda-feira, 1 de julho de 2013

Fui arrumado numa prateleira. E isso é muito bom!



Hoje fui a mais uma consulta de cardiologia. E desta vez é mesmo a última porque finalmente tive

ALTA

... e o meu processo foi arquivado.




E eu que nunca fui tão feliz por me arrumarem numa prateleira.


quarta-feira, 29 de maio de 2013

Waiting for the DEAD that CAN DANCE





Don't fade away

My brown-eyed girl

Come walk with me
I'll fill your heart with joy
And we'll dance through our isolation
Seeking solace in the wisdom we bestow
Turning thoughts to the here and everafter
Consuming fears in our fiery halos

Say what you mean
Mean what you say
I've heard that innocence
Has led us all astray

But don't let them make you and break you
The world is filled with their broken empty
Dreams
Silence is their only virtue
Locked away inside their silent screams

But for now
Let us dance away
This starry night
Filled with the glow of fiery stars
And with the dawn
Our sun will rise
Bringing a symphony of bird cries

Don't bring me down now
Let me stay here for awhile
You know life's too short
Let me bathe here in your smile
I'm transcending
The fall from the garden

Goodnight




Ontem cumpri um velho sonho com 27 anos.

Chamar velho a um sonho é apenas uma figura de retórica para sublinhar o tempo que estive à espera para ver um concerto dos Dead Can Dance (DcD). Na verdade, não há sonhos velhos... há sim sonhos por cumprir. E enquanto tivermos uma dessas pequenas centelhas a pulsar dentro de nós, essa semente conterá em si mesma o segredo da eterna juventude.

Sim, é verdade, desde os meus 16 anos que adoro DcD, e muito especialmente a forma como ele uniram mundos tão distintos como a música erudita, os tons negros do gótico, os drones do darkwave, a luz da pop, o tribalismo da world music, as paisagens contemplativas e cinemáticas dos cantares hungaros, a filigrana folk, os sons medievais e sei lá mais o quê de referências.
A música do DcD faz parte integrante da banda sonora da minha vida. Tranporta-me para outros lugares... recantos mágicos, misteriosos, escondidos da poeira do tempo e da espuma dos dias. É música com cheiro a incenso e especiarias, com o toque da seda dos véus persas,

e com uma paleta cromática que oscila entre o Luto e a Luz.

E não será assim a vida?

O concerto, como não poderia deixar de ser, foi memorável. Sobre um cenário austero, destituído da artificialidade de efeitos especiais gratuitos, ou de efeitos de luz que só servem para nos desviar a atenção do essencial - a música - Lisa Gerrard teve a presença diáfana e hipnotizante de uma deusa grega, com uma voz que arrancou lágrimas até ao mais empedernido dos corações. Brendan Perry, por seu lado, fez as despesas da expressividade corporal e interacção com o público, e mostrou ter, sem grandes surpresas da minha parte, uma das mais belas vozes masculinas que já moraram nos meus ouvidos. Yin e o Yang... são assim os DcD.

Quanto aos temas, oscilaram entre o último álbum "Anastasis" e os álbuns que lançaram sobre a égide da editora de culto 4 AD. Dos muitos momentos altos, destaco o divinal "Sanvean: I'm Your Shadow", que é qualquer coisa do outro mundo,  "Cantara", épico até dizer chega, e uma versão absolutamente divinal do tema "Song To The Siren", que me fez tremer pelas bases (este tema, da autoria de Tim Buckley, foi mais tarde tornada famosa pelo This Mortal Coil).

Única nota negativa... não tocaram o tema "Don't fade away" E é por ser uma das muitas músicas que faz ressoar a minha alma, que a apresento aqui.

Apaguem as luzes, acendam uma vela, fechem os olhos, encaracolem os dedos dos pés

e deliciem-se!

PS: Podem ver a reportagem da revista Blitz aqui

quinta-feira, 23 de maio de 2013

História de um gato e de um rato que se tornaram marionetas




O gato e o rato vão deixar as páginas do livro, e ganhar corpo na Feira do Livro de Lisboa, pela mão maravilhosa do grupo de teatro e marionetas Mandrágora.

O espectáculo será no dia 2 de Junho, pelas 15 horas. Mais tarde, pelas 16 horas, eu e o Luís Sepúlveda estaremos junto ao stand da Porto Editora para ass(assa)inar os vossos livros com a minha devastadora caneta.


quarta-feira, 15 de maio de 2013

Como espreitar o infinito numa manhã ensolarada de Domingo



















Fomos passar a manhã do Domingo a Belém, que é um sítio absolutamente maravilhoso para se fazer uns bons quilómetros de bicicleta com o filho caçula (entretanto, o outro, o João, esse tem andado pelo Jardim Botânico, maravilhado com um curso de Ilustração cientifica para crianças ministrado pelo Museu de História Natural).

Adoro aquele lugar... Aliás, na verdade sou um amante incondicional da cidade de Lisboa.

Como disse, começámos a nossa viagem debaixo da ponte e fomos pedalando até ao edifício que acolhe o mais belo título dado a uma instituição... Centro de Investigação para o Desconhecido, da Fundação Champalimaud. Sempre tive uma imensa curiosidade em ver de perto aquele belo exemplo de arquitectura, mas nada me poderia preparar para a comoção que percorrer a sua praça central me provocaria. Na sua aparente simplicidade formal feita de suaves curvas que comprimem de forma orgânica um espaço saturado de maresia, o edifício conduz-nos delicadamente para a praça central, por entre enormes paredes lisas, perfuradas aqui e ali por janelas de gigante em forma de elipse, que se abrem para o coração verde de clorofila do edifício. Subitamente, ao virar de uma esquina o tempo parece congelar ao darmos de caras com um visão de tirar o fôlego: dois pilares pontuam o topo de uma grande rampa, para a qual todo o edifício converge. Esta rampa esconde os limites Tejo e nos atira sem dó nem piedade para o infinito do céu, que naquele dia foi de um azul vibrante. Uma porta para o desconhecido, e uma homenagem ao que de melhor o ser humano tem: o poder redentor do sonho e a invencibilidade da esperança.

Céus!!! Que praça inesquecível... foi com toda a certeza uma das minhas experiências mais intensas em arquitectura. Aquilo que ali senti foi uma harmonia entre o material e o espiritual. Não se trata unicamente de pura poesia metafórica, resultado de uma imaginação fértil. A elevação espiritual, o convite a um Voo para lá de nós mesmos sente-se em cada milímetro quadrado do nosso corpo. O Miguelito, apenas com 6 anos, sentiu isso. E no fundo, existe neste edifício uma forte relação entre a forma e a função. No seu coração, faz-se investigação topo de gama em diversas áreas cientificas / médicas - muito especialmente em doenças do foro oncológico - cujos resultados poderão mudar para sempre o destino e a qualidade de vida de muitas pessoas. Por outro lado aplicam-se ali tratamentos únicos, pioneiros e visionários, que oferecem o poder redentor e transformador da Esperança a quem infelizmente a eles se vê obrigado a recorrer.

Acreditem, sei do que falo... Uma grande amiga minha está a lutar ali o combate da sua vida, e eu sei que o vai vencer (minha querida amiga ____, sei que o vais vencer... Mesmo!!!!). Com a ajuda da Esperança, do Sonho, dos melhores técnicos e tecnologias do mundo, de uma Paisagem arrebatora - que o arquitecto Charle Correa não se coibiu de esbanjar nas salas onde se fazem estes tratamentos - e da Arte. Porque é disso que este edifício fala... De Cura pela Criatividade, seja ela aplicada à investigação, à tecnologia, ou à arquitectura.

Ofereçam a vocês mesmos um visita a esta praça... e deixem aqui o vosso testemunho.



Nota Final: Foi esta capacidade de expandir espaços exíguos até ao infinito, e de trazer o infinito até bem perto de nós, que me levou a estudar arquitectura, dando corpo a UM dos meus sonhos de menino com 6 anos (desenhar livros para crianças e ser astronauta eram... ou melhor... SÃO os outros). É verdade que acabei por não exercer muito essa nobre arte, apesar da minha formação académica ter sido fundamental na minha actividade enquanto ilustrador. O curso de arquitectura é extremamente ecléctico, e a linguagem que ali se aprende é aplicável em muitas áreas artísticas e técnicas. Contudo, actualmente a minha actividade nessa área resume-se ao planeamento, onde os edifícios não são mais do que uma mancha quadrangular, e os metros quadrados dão lugar aos hectares. Algures pelo meio, uma enorme paixão pela ilustração e por esse objecto a que normalmente chamamos Livro intrometeu-se na minha vida, e o desenho de casas foi ficando para segundo, para terceiro plano. Nunca mais desenhei casas, para além daquelas que povoam os meus livros. Mas muitas vezes me pergunto de que forma a minha actividade de ilustrador poderá ter contaminado a minha sensibilidade de arquitecto. Na verdade, quando penso nisso, penso quase imediatamente na arquitectura louca e desconcertante de Hunderwasser, de quem eu sou admirador incondicional.

Se alguém estiver interessado em construir a sua própria casa e quiser arriscar descobrir comigo o que resultaria da equação:

Arquitectura + ilustração infantil


... é favor contactar-me. Prometo um monte de adrenalina e uma experiência única.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Prometido é devido II


E pronto... já está entregue. Esta é a imagem para a posterioridade com a equipa do Centro Veterinário Anjos de Assis, que fazem tudo o está ao seu alcance para que os os nossos melhores amigos estejam presentes na nossa vida, tanto tempo quanto possível e tendo sempre como limite intransponível a dignidade do animal. O meu amigo Miguel Carreira, Director Clínico, eterno low-profile e sequioso de anonimato, lá arranjou maneira de ficar por detrás do cone da Skye, que por pouco não lhe tapava um enorme sorriso.

Este instante de pura e deliciosa felicidade infantil desenhou-me uma pergunta cá por dentro:

Haverá presente melhor para nós mesmos do que darmos aos outros o melhor de nós mesmos?




A resposta é um redondo e sonoro...










... Não!


Prometido é devido

"Sala de Espera"
por Paulo Galindro
Técnica mista sobre painel de MDF 1.22x0.61m
Maio de 2013


Este foi um compromisso que fiz comigo mesmo em Fevereiro de 2009, quando a nossa querida Ruth se crepusculou. Nesse dia que cá por casa recordamos com um enorme sentimento de perda, mas também de gratidão por termos sido honrados com a experiência de partilhar um pouco da nossa curta existência neste mundo louco e cheio de contrastes com um ser tão luminoso. A Ruth era de facto um Ser de Luz, sem asas é certo - pelo menos daquelas que conseguimos ver nas aves e nos anjos barrocos - mas com pêlo em quantidade suficiente para colmatar essa falha biológica. Foram muitas as vezes que olhei para ela, e pressenti que numa qualquer outra vida, a Ruth talvez tenha sido um ser humano maravilhoso que ao reencarnar nasceu como um ser ainda mais evoluído.

Nesse momento muito triste prometi a mim mesmo que prestaria duas homenagens, através daquilo que melhor sei fazer... Ilustração: à nossa amiga Ruth, e ao meu grande amigo Miguel Carreira, que também é o melhor veterinário que conheço. E esta constatação estende-se a toda a equipa dele, que o acompanha no Centro de Medicina Veterinária Anjos de Assis, no Barreiro. De facto, ainda que represente para nós uma viagem algo longa cada vez que lá vamos, é só nesta equipa que confiamos sem reservas. E acreditem, quando realmente amamos um animal, essa confiança é imprescindível e a única coisa que nos resta, quando naquele preciso momento que ninguém que sequer imaginar, nos dizem que o melhor para a nossa melhor amiga é a eutanásia... a solução mais misericordiosa e humana face a um sofrimento incomportável e sem solução.


4 anos se passaram, e muita coisa aconteceu, das quais destaco a promessa de que jamais voltaríamos a ter um cão, e mais tarde o amor à primeira vista com uma bolinha branca e preta com pouco mais de 20 cm chamada Skye, que tratou de nos mostrar de forma nada subtil que nunca deveremos dizer nunca.
Recentemente a Skye teve um acidente que lhe lhe podia ter custado a pata frontal direita: numa manhã quente de domingo e sem que eu pudesse evitar, a Skye atirou-se para dentro de um espelho de água de um jardim perto da nossa casa. No momento em que vi uma auréola da sangue a espalhar-se em torno dela, percebi que algo estava errado. Muito errado. Dois cortes - um deles muito grave - de um pedaço de vidro, custou-lhe um dedo da pata frontal esquerda, que gangrenou mais tarde e resultou num ENORME problema só sanável com uma quantidade enorme de medicamentos e alguma sorte. E uma vez mais, pude comprovar que a equipa do Miguel Carreira foi a melhor coisa que podia ter acontecido à Skye. Decidi por isso, em modo de profundo agradecimento por todos estes anos, fazer a tal ilustração que acima referi e mostro. A Ruth, como não poderia deixar de ser (afinal, foi ela o verdadeiro mote desta ilustração) aparece por lá, mas só será visível aos mais atentos.
Demorou aproximadamente 20 horas a ser executada, e no final fica uma enorme sensação de paz interior por ter cumprido uma promessa perante a nossa grande amiga, no momento em que fechava os olhos. O Miguel Carreira não faz a mais pequena ideia que amanhã à noite irá receber este presente, e espero sinceramente que se alguém porventura o conhecer, não vá denunciar os meus intentos.

"Skye watching the Sky"
por Paulo Galindro
Ilustração digital em iPad
Abril de 2013

Entretanto, a Skye já saiu da zona de perigo. Ainda carrega ao pescoço um malfadado cone, que ela já não pode ver nem que o mesmo se transformasse num cone de queijo flamengo revestido a lâminas de presunto com 9 meses de cura. Cá por casa já a comparámos a um abajur, a um copo de Martini com uma azeitona preta e branca lá dentro, a uma grafonola e a um aspirador. No entanto, há umas noites atrás, enquanto a catraia fazia um cócózito (que foi devidamente apanhado com um saco, como aliás todos os donos de animais deveriam fazer) e olhava atenta para cima, para um céu estrelado e um luar gloriosos, dei por mim a pensar que ela afinal parece um...

... radiotelescópio.

Com esta ilustração tentei congelar esse momento mágico, uma imagem que só por si já valia uma história inteira.


quarta-feira, 10 de abril de 2013

De tanto bater, agora o meu coração bate ainda mais forte



3 meses se passaram desde que o meu coração me trocou as voltas (curioso... Lembrei-me agora de um velho ditado árabe: "queres ouvir Deus dar uma gargalhada? Conta-lhe os teus planos!").



Durante este período (re)aprendi o Tempo. Não o tempo linear e euclidiano. Esse existe só nos livros. Falo do Tempo emocional, relativo, que Einstein no seu modesto bloco de notas tão bem intuiu, ainda que subindo a montanha do conhecimento pelo trilho da ciência. Este Tempo não é matemático. Nele não se somam e subtraem segundos, minutos, horas, dias, anos. Sendo uma dimensão não euclidiana, comprime-se ou dilata-se ao ritmo do nosso coração. Divide-se na resiliência da esperança. Multiplica-se na fraqueza e na fragilidade. Subtrai-se na delicadeza e raridade dos instantes de pura felicidade. Soma-se na desesperança dos momentos menos bons. Este ritmo obedece apenas a uma única regra... O Tempo de um momento é directamente proporcional ao quanto esse momento é agradável ou desagradável. É essa a suprema ironia da vida: os instantes mais intensos e mágicos da nossa vida são os mais fugazes e efémeros, mas são também aqueles que nos mudam para sempre. Trágico e belo.

Agora que penso melhor nisso, acho que vou reformular a frase com que iniciei este post...  Uma eternidade se passou desde que o meu coração me trocou as voltas

90 dias em casa, onde nada pareceu acontecer e no entanto, agora que olho para trás, tanto aconteceu. E como tudo o que é realmente importante ao coração é invisível aos olhos, muitos desses "eventos" ocorreram a um nível profundo, visceral, indizível. Não tentarei aqui sequer descrevê-los até porque não conseguiria. Não tenho a musculatura poética que me garanta o sucesso dessa demanda. Tudo o que me resta é naturalmente deixar que isso se reflicta naquilo que faço, naquilo que pinto.



No entanto, alguns desses acontecimentos nada tiveram de invisível. Falo do meu novo livro, com texto de Luis Sepúlveda, um dos meus autores sul-americanos preferidos, com quem muito me orgulho trabalhar. Chama-se "História de um gato e de um rato que se tornaram amigos", e fala da alquimia dos afectos e do poder redentor dos laços invisíveis que a todos nos unem. Nada poderia ser mais apropriado num momento em que o Centro de Mim vacilou. Este livro foi, em muitos aspectos, um farol, uma tábua de salvação (e não o são todos os livros que nos tatuam?). Ocupou-me e acalmou-me a mente, habituada que estava a andar à velocidade da luz. Focalizou-me no essencial. Divertiu-me. Deu-me um propósito diário. Manteve-me a salvo da escuridão que por vezes se imiscuiu dentro de mim. Não foi um parto nada fácil. Nada mesmo. Houve momentos em que tive muitas dúvidas se o conseguiria terminar. Valeu a infinita paciência da Porto Editora - que se mostrou sensível à delicadeza do momento que estava a atravessar - e, muito especialmente, ao apoio incondicional de Ana Luisa Calmeiro, da Divisão Editorial Literária, que sempre acreditou em mim, mesmo quando nem eu mesmo já acreditava. As suas frases e imagens motivacionais ao início de cada dia foram para mim a adrenalina, a dopamina, a cafeína e a endorfina necessárias para a percorrer a última milha, que como todos sabemos é sempre a mais difícil.


Agora que terminei o livro, cumpre-se uma vez mais o ritual de desapego, de desprendimento do livro. Aos poucos, ele deixará de ser meu e passará a ser de todos vocês que o folhearem. Um processo que terá seu términos no exacto momento em que o livro estiver impresso.


Esta é a sinopse do livro: 

"Max vive em Munique com os seus pais e irmãos — e com Mix, o seu inseparável gato preto com uma mancha branca na barriga. Amigos desde a infância, quando Max cresce e decide mudar de casa, leva Mix consigo. Mix adora viver no novo apartamento. Mas quando Max começa a trabalhar e não pode estar tanto tempo em casa, Mix, que está a envelhecer e a perder a visão, sente-se cada vez mais sozinho.
Um dia, Mix ouve uns passinhos suaves vindos da despensa e descobre que há um ladrão a comer os cereais crocantes do dono. Esperto, Mix deixa-se ficar quieto e, de repente, com a rapidez de outros tempos, estica a pata e sente o corpo trémulo de um minúsculo ratinho. Mex, como é batizado, é um ratinho mexicano, muito medroso e charlatão. Mas os verdadeiros amigos apoiam-se um ao outro e juntos aprendem a partilhar o que de melhor têm dentro de si.
Baseado num episódio da vida de um dos filhos de Luis Sepúlveda, a História de um gato e de um rato que se tornaram amigos oferece-nos uma vez mais uma fábula singela e divertida sobre o verdadeiro valor da amizade. "




E o melhor de tudo?

Agora, depois de todos os exames que voltei a fazer, sei que está tudo bem com o meu coração. E que bate mais forte do que nunca.







terça-feira, 12 de março de 2013

There is a light that never goes out

"There is a light that never goes out"
por Paulo Galindro
Belém, 12 de Janeiro de 2013

Faz hoje precisamente 60 dias que estou em casa, desde que tive alta do Hospital onde estive internado. 60 dias de calendário, que dos outros, daqueles que são medidos pelo relógio que vive dentro de mim, desses já há muito perdi a conta. Digamos que de acordo com o meu tempo interno, estou em suspenso há uma eternidade e algumas horas. Talvez esta dilatação se deva ao meu coração já ter visto melhores dias a marcar com precisão o ritmo dos meus minutos. Ao fim deste tempo todo, o Centro de Mim continua a dar sinais que algo continua a não estar bem... Nada bem. É dificil não ficar preocupado, não me deixar ir pela imaginação, por pensamentos mais negros e tristes. Não ter ter medo. Bem tento é certo. Há dias que até tenho algum sucesso. Mas ao mais pequeno esforço ou irritação - e às vezes até mesmo sem razão nenhuma - o Centro de Mim transforma-se, irrita-se e arritma-se. Passa de música clássica para ambientes rave, de Black Metal para baladas rock dos anos 80, tudo isto em segundos e não necessariamente pela mesma ordem.
Por vezes, o meu peito arde um pouco e parece querer agigantar-se... nesses momentos gosto de pensar que esses são sintomas agradáveis noutras ocasiões, quando colónias de borboletas instalam-se na nossa barriga. Mas infelizmente não é nada disso. Outras o peito parece comprimir-se, como se quisesse esconder-se. É... O meu Coração já viu dias melhores.
Durante todo este tempo que se tem arrastado a um ritmo pastoso, nada li sobre o que tenho. Quis com isto evitar dramatismos desnecessários e descontextualizados que em nada ajudariam a minha recuperação. Agora temo que não o ter feito possa ter-me levado a subestimar a situação em que me encontro. Merda... O Caminho do Meio é das coisas mais difíceis de atingir, pelo menos para uma pessoa vulcânica e estratosférica como eu.
Estou à espera que médicos me vejam, olhe, cá para dentro e me digam que está tudo bem, que o que sinto faz parte de um processo de construção e não de desconstrução. Até lá tentarei ficar quieto. E acabar devagarinho as ilustrações de um livro que tenho em mãos, que no meio desta tempestade tem sido simultaneamente ponto de encontro de mim comigo mesmo e um parto muito difícil e arriscado.


Quieto...



Penso em Faróis... e na sua Luz.

segunda-feira, 11 de março de 2013

João e Marc tocam Ludovico Einaudi



Há uns meses atrás, o meu pequeno grande João começou a ter aulas de música com o meu grande, grande amigo Marc Parchow.
Marc é ilustrador, editor na Qual Albatroz, multi-instrumentalista, anjo da guarda dos albatrozes, especialista em fauna e flora de aquários zen, companheiro de ondas, agricultor de hortas de janela e afins, expert em tudo e mais alguma que possam imaginar e acima de tudo, tem um jeito do caraças para os miúdos. Um verdadeiro homem renascentista, portanto. Não sei se já assistiram a alguma sessão dele numa qualquer escola ou biblioteca... é completamente impossível não sairmos de lá com um enorme sorriso de meia lua tatuada na cara tal é a overdose de energia positiva que dali vem.
Tal como já disse, o João começou a ter aulas de guitarra com o Marc. Mas devido á visão holística que o Marc tem da música, cedo começou a experimentar outros instrumentos.
O João é um miúdo musical. A música é omnipresente cá em casa, em todas as suas formas de expressão. Adora Jazz, Bossa Nova (chama-lhe Música de Chuva, porque sempre ligou estes géneros musicais à chuva e aos piqueniques na sala, no aconchego da lareira) e música clássica. São por isso raras as vezes em que não fico profundamente emocionado com surpresas destas.

Obrigado Marc, por este momento.

quinta-feira, 7 de março de 2013

12 Anos




Faz hoje 12 anos que um majestoso tsunami chamado João atingiu a nossa costa.





sexta-feira, 1 de março de 2013

Olhar para trás para ver em frente



Por vezes, mais do que olhar para a frente, temos de olhar para trás para ver o caminho que já percorremos. Serão raras as vezes em que não ficaremos abismados.

A imagem  acima apresenta alguns fragmentos retirados da montanha de Moleskines e afins que tenho por casa... diários gráficos que são muito mais do que isso... confessionários, espaços de exorcismo, quartos de desabafos feitos de papel, universos que se destroem e constroem com um golpe de lápis... e acima de tudo, o sítio onde pinto os monstros que povoam os meus pesadelos com cuecas às flores para que humilhados nunca mais apareçam.
Um dia, quando me desmaterializar, quando estas coisas analógicas pertencerem a um passado nada distante, será o meu legado físico aos meus filhos. Um pedaço de mim tornado celulose amarelecido. Talvez nessa altura eles compreendam melhor o pai maluco que têm.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Make Lego, not war!





Desde o início do ano que estou em casa, de baixa, devido ao susto que a minha vida decidiu pregar-me. Sempre vivi a 100 à hora, por vezes até à velocidade da luz, que é a velocidade do pensamento. E eu penso muito, demais até.

"Na minha cabeça cabem muitas coisas!", disse o meu filho João do alto dos seus poucos centímetros de altura, quando tinha mais ou menos 3 anos. Coitado, sai ao pai... nem sabe onde se meteu. 

E é exactamente esta minha tendência para as tempestades eléctricas cerebrais que têm tornado este período de convalescença tão difícil de ultrapassar. Estava habituado a viver no 80, agora passei para o 8. Devia aprender a viver no 44... o meio termo que aumenta as possibilidades de virmos a conhecer o 8 deitado -  - mais tarde. Mas não sou assim... sempre saltitei entre o preto e o branco, entre a luz e a escuridão, entre o cima e o baixo tão apaixonadamente como me foi possível, e isso é bom por vezes, outras uma maldição. Agora vivo no cinzento. Há dois meses. Vivo na ironia de nunca ter tido tanto tempo livre como tenho e de nunca conseguir conseguir fazer tão pouco como agora faço. Estou a ilustrar um livro, com a velocidade que a actual aridez criativa me permite. Tenho-me dedicado à culinária, actividade que sinto jamais fará parte do meu curriculum, no capítulo das actividades que domino. Sou mais um seguidor de receitas, que depois as adultera q.b. Tenho mais tempo para estar com os miúdos, tarefa que me dá um enorme prazer mas cujas constantes batalhas campais testosterónicas nem sempre me permitem a paz de espírito monástica que os médicos me condenaram quando tive alta do hospital. E depois há o frigorífico e a televisão. Houve mesmo um dia que dei por mim a assistir a um programa de manhã, daqueles que segundo consta têm como público alvo os idosos... "10 maneiras de usar o aparelho de frisar cabelo" era o nome da rubrica. E eu que tenho um crânio mais liso que uma bola de bilhar.

Céus!

E depois? depois há a minha cabeça que não pára de pensar. De criar cenários. De querer voar. De querer viajar mesmo sem sair o lugar. E o medo de que nada volte a ser como dantes.
E depois há o corpo que pede para correr, mas não pode. Pede para deslizar, mas não pode. Pede para saltar, mas está proibido. Durante este período, descobri da pior forma que sou viciado em drogas... endorfinas para ser mais exacto. As tais que nascem do exercício físico, que dão uma enorme sensação de bem-estar e que ainda por cima são grátis. E agora, parado, imóvel, vejo-me privado das minhas doses semanais. Até hoje, não imaginava que os sintomas de privação pudessem ser tão intensos, e ter tantas consequências, especialmente ao nível emocional.

A minha família e os amigos preocupam-se comigo. Não gostam de me ver assim, triste, cabisbaixo, pardacento. E eu faço de tudo para me manter na luz, afastado da sombra que um eclipse de mim mesmo pode produzir.

Mas por vezes é tão difícil.

Talvez por isso a Natalina e os meu filhos tenham decidido ajudar-me a cumprir um sonho antigo. Sempre quis ter uma volkswagen pão-de-forma. Podia ser de qualquer cor... azul-cueca, amarela ou beje. Com cortinas com flores havaianas, cama e cozinha incluídas. Há uns anos atrás, quando necessitámos de trocar de carro, chegámos mesmo a ponderar adquirir esta viatura icónica. Viatura não, estilo de vida. Mas a razão sobrepôs-se à emoção, e optámos pelo conforto moderno. Ainda hoje não sei se foi uma boa opção.
Pois bem... agora tenho uma. Linda. Vermelha e branca. Daquelas que até os vidros da frente rebatem. E não gasta nada. Só tem um senão... é do exacto tamanho de um pão-de-forma. Tem 1332 peças, e demorou alguns dias a construir. Mas deu-me um gozo do caraças, a mim e aos meus filhos porque estas coisas sabem melhor quando partilhadas. E a minha cabeça pôde finalmente descansar um pouco.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

E os vencedores são______(barulho de tambores a rufar)...




Prometido é devido... aqui estão os vencedores do concurso que aqui lancei. Quanto aos vencedores, peço desde que já me enviem por mail a vossa morada, para que possa enviar-vos os presentes.

Obrigado a todos pela participação, e obrigado pela paciência que irão ter ao verem este vídeo... não foi fácil realizá-lo.


segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O poder de uma história






"Então o homem de idade disse: - Eu tenho uma história que vai fazê-lo acreditar em Deus (...)
- Isso é uma tarefa difícil.
- Não tão difícil que não consiga lá chegar."

Yann Martel "A Vida de Pi"



Já ando a ler este livro, e devo dizer desde já que estou a adorar. No entanto, há uns dias atrás fui ver o filme com o meu filho João, realizado por Ang Lee. Na verdade, nunca gostei de sobrepor o visionamento de um filme ao livro que lhe deu origem. Ler um livro é deixar que a imaginação crie o mundo que vive nas suas páginas, e que dê vida a todas as histórias que acontecem nas entrelinhas (essa é também a função de um ilustrador). Ver o filme primeiro é sobrepor a visão de alguém à nossa própria visão, e isso é de certa forma matar um pouco a experiência mística de mergulhar num livro, mas desta vez subverti as regras do (meu) jogo.
Sei que a crítica "especializada"  não foi muito favorável ao filme (as aspas não são acidentais, nem pretendem ironizar de uma forma depreciativa o trabalho destes profissionais... carregam sim a necessidade de termos também nós uma postura crítica perante o que nos rodeia, e que se sobrepõe sempre à opinião de terceiros que por vezes, não são tão especialistas com seria de esperar) e em determinados pontos, concordo plenamente com a opinião deles. Mas ainda assim foi uma experiência impressionante e visualmente inspiradora e absorvente. Mas acima de tudo, fala-nos do poder de contar uma história e do quanto reconstruímos o mundo e a nossa própria existência cada vez que o fazemos. Como deuses.

Por vezes pergunto-me se nós mesmos não seremos meras personagens de livros algures numa biblioteca sem fim, onde as histórias se encandeiam, entrelaçam e se repetem - como um mandala formando padrões fractais que escondem o segredo do universo - até que cada um dos seus personagens atinja o Prólogo da sua existência... o momento em que conhecerá o Autor. E quem sabe se o Autor não será também ele um personagem de um livro ainda maior.



"A ficção é isso, não é verdade, a transformação selectiva da realidade? Torcê-la para lhe extrair a essência?"


Yann Martel "A Vida de Pi"

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

2013




2012 foi uma viagem e tanto. Teve momentos maravilhosos, e outros nem tanto. Mas no fim, o que fica é o que nos fez voar.
Quero manifestar aqui a minha total admiração por todos vocês que estão aí desse lado. São vocês que dão cor a tudo o que faço.

Um imenso agradecimento pela vossa magia, e que tenham um muito bom ano de 2013.


quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

A Luz que me tatua os olhos



"Let love in"
por Paulo Galindro
Oeiras, 27 de Dezembro de 2012 pelas 7.45

"Because a heart that hurts
is a heart that works"

Placebo "Bright Lights"

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A vida é um sopro



Oscar Niemeyer - A Vida é um Sopro from FIAPO on Vimeo.


Hoje morreu, aos 104 anos de idade, Oscar Niemeyer, uma das maiores referências da arquitectura moderna. Nem sequer tentarei ter a presunção de descrever em poucas palavras o quanto a vida deste homem renanscentista foi rica, assim como é riquíssimo o legado que nos deixou. Seria imperdoável da minha parte, nem o saldo do meu léxico me chegaria para um tamanho investimento. Apenas posso afirmar que o seu amor exacerbado pela vida ("Amo a vida e a vida me ama. Somos um casalzinho insuportável."), e a forma como o transpôs para a sua obra tão multifacetada - organica e sensual - me inspirou de todas as formas possíveis... Como arquitecto, mas acima de tudo como ilustrador. O meu amor pelas linhas sinuosas e pela fluidez no traço devo-o em muito a ele, que uma vez afirmou:

"O que me atrai é a curva livre e sensual. A curva que no encontro sinuoso dos nossos rios, nas nuvens do céu, no corpo da mulher preferida. De curva é feito todo o universo. O universo curvo de Einstein"
Não me sinto triste, nem lamento a morte de Oscar Niemeyer. Como sentir isso de alguém que viveu tanto e de forma tão apaixonada a vida, e que morreu a viver a sua lenda pessoal tão intensamente. Os últimos projectoS de arquitectura datam mesmo de 2010.

É... tal como ele afirmou, "A vida é um sopro". Algumas vezes mesmo um singelo suspiro. Mas neste caso, foi um soprar imenso e intenso - a plenos pulmões - para encher de uma vez só esse imenso balão chamado VIDA. E quando este Balão está cheio, os nossos pés deixam de tocar a terra de uma forma quase imperceptível.

Obrigado ON, e até sempre

PS: Para conhecerem alguns dos seus edifícios mais belo, voem até aqui.


sábado, 3 de novembro de 2012

Anjo da guarda




"ClaraFila"
Por Paulo Galindro
Acrílico sobre pedaço de madeira flutuante
Novembro de 2012


Anjo da Guarda,
minha doce companhia,
guarda a minha alma
de noite e de dia



aqui falei muitas vezes da Skye. Não me alongarei mais sobre o furacão que há 2 anos atrás nos entrou pela casa adentro, e nos revirou tudo do avesso. Metaforicamente, emocionalmente e fisicamente.

Quero apenas falar-vos um pouco do que é correr com esta menina.
Com a Skye, já corri aproximadamente 1100 km. Sempre no paredão de Oeiras. É muito tempo passado a correr com uma criatura que não é da minha espécie. Durante este tempo de esforço partilhado, são muito os laços que se foram criando, ao ponto de quase já nem precisar de lhe dar ordens. Sei exactamente os sítios onde ela irá os xixis, os cócós (devidamente apanhados e deitados no lixo, ao contrário do que fazem muitos humanos que por ali se arrastam). Sei quais os cantos que ela irá cheirar, os pontos em que ela irá ficar para trás até a deixar de ver e aqueles que ela irá correr que nem uma desalmada, muito à frente de mim (sabe-se lá porquê... talvez sejam variações no campo magnético da terra ou as emanações de algum antigo cemitério índio que por ali existiu).
Ela tem sido a minha única companhia. Estou tão habituado à sua silenciosa omnipresença que receio até que se algum dia participar numa qualquer corrida não farei nem 1000 metros se ela não estiver lá comigo.
98% dos quilómetros que corremos foram feitos à noite, algumas dessas vezes já perto da meia-noite. Como devem calcular, a essa hora não há muitos malucos como eu a correr. A Skye é, nesses momentos de solidão, um verdadeiro anjo-da-guarda. Não daqueles anjos-da-guarda assexuados e irreais das igrejas barrocas, mas sim um verdadeiro anjo-da-guarda, de carne e osso, daqueles que todos nós temos na nossa vida mas nem sempre nos apercebemos. Não voa, é certo. Também não toca harpa nem dispara setas (o único gadget que tem é uma luzinha daquelas que os espeleólogos usam na cabeça e que se vê a centenas de metros) mas a sensação de segurança que me transmite a sua presença é imensa, mesmo nas noites de grande tempestade, que são aquelas em que mais gosto de correr. Vá-se lá saber porquê, mas correr com vento, chuva a potes, ondas enormes a espalhar espuma e sal pelo paredão dá-me uma paz de espírito e um silêncio interior que não consigo atingir quando tento meditar no conforto o sofá.

A Skye tem uma fixação por paus, canas, garrafas de plástico. Enfim, qualquer coisa que ela possa morder enquanto corre. Pode estar completamente exausta, mas se porventura vislumbrar um bocado de madeira algures ela irá buscá-lo onde quer que esteja e vai andar com ele na boca até se fartar. Vai brincar com ele, atirá-lo ao ar e apanhá-lo em pleno voo, mordê-lo até não restar mais do que umas lascas. Pode ser um pedaço de madeira pequeno com algumas gramas, ou ter quase dois metros e pesar 2 quilos, o que provoca grande confusão e gargalhadas em quem porventura se cruzar connosco.
Pode até ser uma folha de palmeira, que como uma vassoura gigante, varre tudo o que encontra pela frente (pessoas inclusive).


Recentemente, a Skye encontrou o pedaço de madeira que apresento acima. Transportou-o na boca durante praticamente toda a nossa corrida, que são cerca de 10 km. Quando cheguei ao carro e ela me atirou para os pés, reparei que este pedaço de madeira velho, meio podre - com 62 cm e quase um quilo - e que talvez tenha flutuado milhares de quilómetros pelos oceanos, quem sabe desprendido de um qualquer galeão afundado há séculos, apresentava um desenho de veios lindíssimo, que nesse preciso momento me inscreveu nos olhos a imagem de uma deusa, a quem eu decidi chamar ClaraFila, uma das 12 deusas da floresta. E isto decidi eu também. Trouxe-a por isso para casa, e decidi pôr a descoberto o que os meus olhos já tinham visto.

E não! Antes que me perguntem, não fumei nem bebi nada.
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