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quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Uma oficina que rimou com cafeína


















Ainda no âmbito do evento Braga em Risco - Encontro de ilustração, fui convidado a fazer uma pintura ao vivo e ainda uma pequena oficina com os miúdos e os graúdos dos miúdos que ainda adoram ser miúdos, a que muito a propósito batizei de "Uma oficina que rima com cafeína". Tudo isto no dia 13 de Novembro. 

Seguindo a tendência das minhas últimas sessões de pintura ao vivo, voltei uma vez mais a mergulhar no mundo dos materiais de pintura inusitados. Falo de café, de vinho reduzido, de açafrão, de pimentão-doce, de pó de carvão (...). E porque teimo eu neste materiais? porque são divertidos, algo anárquicos, belos, baratos / democráticos, naturalmente harmoniosos entre si, aromáticos, desconcertantes e visualmente dinâmicos conforme vão envelhecendo na tela (uma homenagem ao livro O retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde).

A inspiração para a imagem a ilustrar chegou-me com grande intensidade pelas palavras do saudoso cavalheiro Leonard Cohen - por quem sempre nutri um enorme carinho - no tema "Anthem", a quem muito humildemente quis prestar uma sentida homenagem:

"There is a crack, a crack in everything 
That's how the light gets in."

Esta frase tem sido para mim um mantra ao qual tenho recorrido ultimamente para sobreviver à escuridão e ao caos que parecem estar a cobrir uma vez mais a humanidade.


Este tipo de ilustrações, feitas ao vivo e sem rede têm um carácter tosco e experimental que me agrada sobremaneira. Não são nem pretendem ser produtos acabados - muito pelo contrário - mas sim um esboço de uma eventual ilustração futura e, acima de tudo, um exercício de libertação pessoal, porque crescemos sempre que vamos para fora de pé. Esta é pois, mais uma imagem que sei, voltarei daqui a uns tempos.

Quanto à oficina, foi uma vez mais deliciosa, porque uma vez mais os miúdos não precisaram de mim para nada. O que pretendo com estes momentos não é ensinar qualquer coisa no sentido mais lato do termo... seria uma grande presunção da minha parte acreditar que poderia ensinar o que quer que seja a um espírito livre. O que pretendo unicamente é devolver aos miúdos o prazer imenso que é desenhar, pintar, rabiscar pelo mais puro e primitivo dos prazeres. Há 20.000 anos atrás já os nossos antepassados peludos marcaram para a posterioridade, nas paredes das cavernas, esse impulso mais forte do que a vontade. Não pretendo imagens bonitas (se bem que elas aparecem sempre... seja lá o que isso signifique), não pô-los a desenhar uma qualquer coisa previamente desenhado por mim, nem definir um tema nem sequer fazer comparações ou fomentar competições para ver quem esteve mais à altura. Isso já eles têm de sobra, para dar e vender, na escola.

É o prazer que eu quero (re)visitar. O prazer das texturas, dos cheiros, das manchas aparentemente casuais, das cores que se harmonizam naturalmente entre si, das mãos sujas, da surpresa com que descobrimos que existem infinitos materiais de desenho e pintura, do olhar que se perde nos pormenores das marcas que vamos imprimindo no papel e que a maior parte das vezes nem reparamos (experimentem pintar com um material qualquer, e depois observar com uma lupa). E, acima de tudo, quero plantar a semente da vontade... A vontade de voltar muitas vezes a esse Lugar. Porque é nesse Lugar que tudo o que vem a seguir deverá assentar.

Se conseguir fazer retinir essa corda numa só pessoa,
já ganhei o dia,
o mês,
o ano. 



A workshop that rhymed with caffeine

Still in the ambit of the event Braga en Risco - Illustration Meeting, I was invited to do a live painting and also a small workshop with the kids and the fathers of the kids who still love being kids, to which I very much called "A workshop Which rhymes with caffeine". All this on November 13th.

Following the trend of my last live painting sessions, I went back once more to immerse myself in the world of unusual painting materials. I speak of coffee, reduced wine, saffron, sweet pepper, coal dust (...). And why I stubborn in this materials? Because they are fun, somewhat anarchic, beautiful, cheap / democratic, naturally harmonious, aromatic, disconcerting, and visually dynamic as they age on the canvas (a tribute to Oscar Wilde's The Portrait of Dorian Gray).

The inspiration for thus illustration came to me with great intensity from the words of the late gentleman Leonard Cohen - someone i always had a great affection - on the theme "Anthem", to whom i very humbly wished to pay a heartfelt tribute:

"There is a crack, crack everything
That's how the light gets in. "

This phrase has been for me a mantra to which I have lately come to survive the darkness and chaos that seem to be covering humanity once again.

This type of illustrations, made live and without a net, has a crude and experimental nature that I like very much. They are not and do not pretend to be finished products - quite the contrary - but rather a sketch of a future illustration and, above all, an exercise in personal liberation, because we grow up whenever we go outside the box. So, this is an image that I know, I will return one day.

As for the workshop, it was once again delicious, because once again the kids did not need me at all. What I want to do with these moments is not to teach anything in the broadest sense of the term ... it would be a great presumption to believe that I could teach anything to a free spirit. What I intend to do is to return to the children the immense pleasure of drawing, painting, and scribbling as purest and primitive pleasures. Twenty thousand years ago, our hairy ancestors marked this impulse stronger than the will on the walls of the caves. I do not want beautiful images (although they always appear ... whatever that means), I did not make them draw something previously designed by me, nor define a theme or even make comparisons or encourage competitions to see who is the best. That they already have plenty of, to give and to sell, in school.

It's the pleasure that I want to (re)visit. The pleasure of the textures, of the smells, of the seemingly casual spots, of the colors that harmonize naturally with each other, of the dirty hands, of the surprise with which we discover that there are infinite materials for drawing and painting, of get lost in the details of the marks that are printing on paper and most of the time we do not even notice it (try painting with some material, and then observe with a magnifying glass). And, above all, I want to plant the seed of the will ... The will to return often to this Place. Because it is in this Place that everything that comes next should rest.

If i can strum this rope in just one person,
I'll have won the day,
the month,
the year.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Café, para que te quero

Café, açafrão, carvão e morcegos from Paulo Galindro on Vimeo.


Ainda no âmbito de uma urgente actualização do meu blogue que, coitado, tem sido deixado um pouco à sua sorte (nem sequer tenho aberto as janelas desta minha casa virtual para a ventilar transversalmente), gostava de falar aqui de uma experiência com café que tive o prazer de fazer na Biblioteca Municipal de São Mamede de Infesta, no passado dia 18 de Março. De facto, aproveitei esse convite da Biblioteca para pôr os miúdos a pensar fora da caixa, estimulando-os a utilizar outros materiais de pintura menos ortodoxos, que no caso em particular foi o café de cevada. O que eu não estava nada à espera foi da reacção a esse desafio... os miúdos ficaram absolutamente rendidos à possibilidade de utilizarem um material tão "estranho", para fazerem aquilo que até à data só faziam com os materiais mais clássicos. Diria que para esta sessão bastaria ter feito a demonstração que fiz numa tela de 1.00x1.20 m forrada a pano cru e ir-me embora, porque nas 2 horas e meia seguintes eles nem sequer se aperceberam da minha presença.

Este pequeno vídeo é um registo em timelapse desse dia mágico.

Also as part of an urgent update of my blog that, that I confess, has been left a little to their fate, I like to talk here about a coffee experience that I had the pleasure of doing at the Municipal Library of São Mamede de Infesta, on the 18th of March. In fact, I took this invitation Library to put the kids to think outside the box, encouraging them to use other paint materials less orthodox, that in this particular case was the barley coffee. What I was not not expecting was the reaction to this challenge ... the kids were absolutely surrendered to the possibility of using such a "strange" material, to do what so far they only made with more traditional materials. I would say that it would be enough for this session if I have made the demonstration that I made on a 1.00x1.20 m canvas lined with unbleached cloth and go away, because in the next two hours and a half the kids did not even unaware of my presence.

This short video is a record in timelapse of that magical day.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Os diários de Varsóvia III



Algumas fotografias do dia anterior, que por lapso não integraram o último post:
O Bairro judeu, que os nazis converteram num gueto, onde as condições de vida
se degradaram a um nível sub-humano.


Um pátio do Gueto

No 3º dia de manhã aproveitámos para passear novamente pela zona antiga da cidade, e para nos deixarmos perder por zonas que ainda não tínhamos visitado. Quando visito uma cidade, gosto de me munir de uma planta da mesma. Contudo, confesso que muitas das vezes, especialmente nos dias seguintes, gosto de abandonar o mapa no fundo de um bolso e deixar-me ir ao sabor da intuição. Perdem-se os típicos lugares turísticos, ganha-se na descoberta de lugares verdadeiros onde verdadeira vida decorre alheia à nossa presença. Em Roma, sê romano!









O meu lado gótico deixou-se hipnotizar por este belíssimo
portal de uma igreja de Jesuítas.







De pedra, ou de carne e osso?

Os eléctricos são lindíssimos. Com um design tipicamente russo,
sente-se que foram construídos  para durar.



2 edifícios, com 60 anos de diferença. Descubram as diferenças.


A Sylviane Rigolet foi uma companhia adorável.


Tal como os eléctricos, os autocarros têm uma estética russa muito vintage.



Nesse dia de manhã não nos podemos afastar muito, pois logo a seguir ao almoço estava marcada a minha palestra, a ter lugar novamente no Atelier Foksal. Tal como já tinha ensaiado no 4º Encontro Nacional de Ilustradores em São João da Madeira, a minha palestra teve como título "Tabus & Histórias de Amor". Com a duração aproximada de 1.15 h, tive a oportunidade de falar dos meus livros "Sabes que também podes ralhar com os teus pais?" e "Sabes onde é que os teus pais se conheceram?", ambos escritos pela jornalista Maria Inês de Almeida e editados pela editora Booksmile, e ainda de algumas ilustrações que tocaram de alguma forma o Tabu.
Uma vez mais, os meus maiores receios quanto à distância linguística revelaram-se infundados, pois a Dorota foi incansável no seu papel de interprete. Curiosamente, a reacção de quem assistiu à apresentação do 1º dos livros acima referido foi totalmente normal. Julgo que nem sequer entenderam porque razão o tema foi de certo modo mal recebido em Portugal, como de facto foi, tal como pude assistir em primeira mão. Em todas as vezes que apresentei o livro publicamente houve sempre quem o considerasse um Manual de Subversão Infantil extremamente perigoso, por colocar o poder e autoridade paternal em causa, não obstante eu salvaguardar sempre o princípio construtivo subjacente, e ainda o facto de que eu próprio me revejo enquanto pai em muitas das situações retratadas. Houve mesmo um embargo - temporário mas ainda assim não deixou de ser um embargo - de uma conhecida livraria. Enfim.



Eu, e a Dorota

A Teresa Starzeg, co-fundadora do Atelier Foksal que se revelou
uma pessoa tão colorida e marcante como as suas roupas.




A Teresa Starzeg e o Andrzej Bielawski, fundadores do
Atelier Foksal e artistas plásticos de renome na Polónia.

Senti uma empatia tão grande com a ambiência e o espírito que se vive no Atelier Foksal, que confesso que me sinto tentado a aceitar o convite de Teresa e Andrzej para ir viver uns meses para Varsóvia, no âmbito das residências criativas proporcionadas pelo próprio atelier, ainda para mais com a intensa degradação do nível de qualidade de vida que se prevê nos próximos tempos para o nosso país. A ver vamos.

O resto do dia e a manhã do dia seguinte - o voo estava marcado para a tarde de 2ª feira - foram dedicadas exclusivamente à boémia, com muito chocolate quente, vodka, comida e compras de livros à mistura.
O chocolate é uma das masiores tentações do polacos. Esta é a
chocolateria de culto de Varsóvia. E garanto-vos que beber chocolate quente numa
cidade fria como Varsóvia é uma experiência única



Marley e eu.
Tenho de deixar crescer o cabelo para fazer umas rastas.


Do widzenia do następnego razu. Mamy już wiele wspomnień.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Os diários de Varsóvia II

Eu, e a Sylviane Rigolet à porta
do Museu da Resistência de Varsóvia
Dia#2

No 2º dia em Varsóvia, Sábado mais precisamente, guardamos o período da manhã para visitarmos o famoso Museu da Resistência de Varsóvia (Muzeum Powstania Warszawskiego), que se localiza na rua Grzybowska, numa antiga central eléctrica recuperada para o efeito. Varsóvia foi uma das cidades mais fustigadas pelos alemães e as suas muito conhecidas tendências expansionistas. Seria politicamente correcto dizer "pelos nazis", mas hoje, mais do que nunca, considero que esta é uma visão redutora, simplista, e perigosa até, por que renega uma visão muito mais abrangente da história, e acima de tudo, da actualidade. De facto, sem toda a parafernália gráfica, estética, de indumentárias, de discursos pseudo-místicos, de busca pelo Santo Graal, de teorias de Eugenia e de campos de extermínio que caracterizaram o nazismo, verifico com grande tristeza que a velha máxima que afirma que a história se repete a si mesma até aprendermos algo com ela, é hoje mais do que nunca verdade. Podemos de facto observar em primeira mão que este fenómeno expansionista e de controlo não terminou nos anos 40, e actualmente verifica-se de uma forma não tão subtil como gostariamos de acreditar, onde "apenas" se trocaram as armas pelos mercados. Só posso fazer votos que a o ciclo histórico fique por aqui e não vá tão longe como noutras épocas.

Alguns brinquedos da época





O pequeno insurgente... um homenagem a todas as crianças
que se juntaram aos adultos na luta contra os nazis...
e foram muitas.





Confesso que fiquei fascinado por esta fotografia.
A beleza no meio o horror.
Este museu pretende fazer uma homenagem merecida a todos os seres humanos que heroicamente fizeram frente ao avanço do demónio germânico. Pessoas como qualquer um de nós - homens, mulheres, crianças, idosos - na maior parte das vezes sem quaisquer conhecimentos militares, que lutaram com tudo o que tinham à mão mesmo sabendo que no final seriam aniquilados. A sua arma mais forte foi a convicção de quem já não tem nada a perder. E essa é uma arma poderosa. Contudo, o seu sacrifício não seria em vão... a sua perseverança serviria de inspiração aos sobreviventes e às gerações seguintes para erguerem novamente a cidade.
São salas e salas de cheias de memorabilia, de objectos perdidos, de fragmentos de vidas estilhaçadas, de armamento, de sons de bombardeamentos, de imagens e vídeos atrozes (sempre dentro de umas caixas de cimento com paredes altas, deste modo devidamente protegidos dos olhares dos mais pequenos), de fotografias de todos aqueles que pereceram neste apocalipse, e que de outro modo seriam para sempre anónimos. Mas estas salas também estão cheias de tudo aquilo que torna o Ser Humano glorioso... coragem, altruísmo, dignidade, perseverança. esperança e, acima de tudo, amor.



Não me importava nada de percorrer as estradas do Alentejo
numa coisinha destas...



... e de dar uma volta ao mundo num pássaro destes, mas pintado
com 1000 cores pela Pintarriscos.


Informaram-me que o comunismo é proibido na Polónia.
Não sei em que moldes esta interdição é aplicada,  mas o ódio é
tanto que os polacos decidiram, num gesto de ironia,
transformar a antiga sede do partido na Bolsa de Valores
de Varsóvia


Estes avisos estão espalhados por toda a exposição, e revelam bem
o acervo de imagens de arquivo absolutamente brutais
do que foi a invasão alemã
Sem palavras

A visita a este museu não é fácil, nem nunca poderia ser. Como tratar um tema tão brutal e violento de uma forma leve, agradável e politicamente correcta? A Natalina e a Sylviane sentiram a necessidade de sair antes do fim, pois em alguns pontos o ambiente torna-se mesmo muito, muito pesado. Eu obriguei-me a ir até ao fim, mas por vezes não foi uma tarefa nada fácil. O que torna este museu verdadeiramente chocante é que, de alguma forma nos faz olhar para dentro de nós mesmos. Cada uma daquelas pessoas poderia ser eu, os meus filhos, tu. Esta é a grande lição da História... Não se trata uma mera actividade humana que se limita a coleccionar factos e objectos do passado. É sim um aviso ao futuro: se não aprenderes comigo, tudo isto se repetirá, e de formas bem mais sofisticadas.
Um facto curioso... em nenhum ponto deste museu se encontra uma fotografia de Hitler, por se considerar que mais pequena imagem poderia ser uma homenagem à besta em questão.



Considero a visita a estes locais não uma opção mas um imperativo. Tivesse eu mais tempo e teria viajado os 300 km que separam Varsóvia de Auschwitz - Birkenau, não por ser um passeio agradável - muito muito longe disso - mas por ser um dever que todos temos para com os 6.000.000 de seres humanos que desapareceram nos campos de extermínio. O dever de não esquecer, e acima de tudo não fingir que nunca aconteceu.

Esta imagem em grande formato deixa qualquer um chocado...
os últimos segundos de vida de um homem.




A inspiração da resistência polaca bem patente na inscrição desta pedra




À saída do museu, e aproveitando uma manhã dedicada à 2ª Guerra Mundial, fomos visitar o muito pouco que resta do gueto onde os judeus foram confinados - onde a fome, as doenças e as deportações reduziram uma população 380 000 habitantes para 70 000 habitantes - e que em 1943 os alemães dizimaram completamente. Segundo nos apercebemos, estão a ser realizadas obras de recuperação destes edifícios para apartamentos e escritórios. Apesar de me ter chocado a ideia de viver num sítio com uma história de sofrimento tão pronunciada (nós por cá também temos situações destas, como é o caso da sede da antiga polícia política, PIDE, situada no número 22 da Rua António Maria Cardoso, em Lisboa, que está a ser transformada num condomínio de luxo) a verdade é que parece haver uma vontade por parte dos polacos em "apagar", ou "atenuar" uma memória demasiado dolorosa, para desta forma poderem olhar de frente um futuro sem fantasmas. Não critico, mas sinto que com o tempo vem o arrependimento de se terem tomado este tipo de decisões. Ainda que cheio de gruas e andaimes, não pude deixar de sentir uma imensa tristeza neste local, onde cada pedra, cada tijolo, conta a história de uma realidade que para a minha geração é, felizmente, até agora, inimaginável.


O que resta do antigo gueto judeu



Um pouco por todo o lado surgem edifícios ultra-modernos, que contrastam
com a carga histórica e simbólica desta cidade... e ainda bem!




Workshop para crianças "Pintar, desenhar, sujar e rasgar – tudo serve para ilustrar"

Nesse mesmo dia, durante a tarde, dei um workshop para crianças. Todos os eventos tiveram lugar no Atelier Foksal, que é a materialização ao pormenor de um sonho há sonhado por mim cá para Portugal... um edifício totalmente ocupado por um imenso atelier, onde se aplica a 100% o conceito de educação pela arte. Fundado por um adorável casal de artistas plásticos de renome em Varsóvia - Teresa Starzeg e Andrzej Bielawski - neste espaço são abordadas todas as artes criativas. E quando digo todas, é mesmo todas... nada fica de fora. O público alvo são as crianças dos 0 aos 110 anos, a quem são ministrados workshops, palestras, encontros com artistas plásticos de todos os quadrantes, residência criativas, curso de médio e longa duração, preparação para a universidade, terapia pela arte, e um imenso étecétera.
Confesso que andava muito preocupado com o facto de a diferença abismal entre as nossas línguas poder ser uma barreira intransponível na criação da tão necessária química para que estas oficinas dêem frutos. No entanto, essa preocupação revelou-se infundada. Graças ao apoio da Dorota na tradução, tudo correu na perfeição. A Dorota que estudou a fundo a cultura portuguesa na universidade nas suas mais variadas vertentes. Juntamente com mais 900 polacos forma uma comunidade que sente uma grande atracção pela nossa cultura, o que não deixa de ser impressionante.
















Com tantos pedidos para desenhar um tubarão,
acabei por recorrer à capa de "O tubarão na banheira"






























O workshop correu maravilhosamente bem. Atendendo ao tema do evento, decidi usar o meu livro "Sabes que também podes ralhar com os teus pais?", cujos originais mostrei antes, para lhes lançar o desafio de desenharem algo que não gostassem que o pais fizessem, mas sempre de um ponto de vista construtivo (que é aliás aquilo que se passa com o livro). Confesso que fiquei em parte surpreendido com a beleza dos resultados finais, e digo em parte porque muitos dos miúdos frequentam cursos no atelier. O workshop era para ter a duração de 1:30 h, mas acabou por ter quase 3 horas, tal foi a dedicação dos
 miúdos. 







Uma sereia, a pedido de um menino que adora sereias.
Quem não gosta?







A palestra de Sylviane Rigolet: "Tabus, preconceitos ou temas difíceis: assuntos sempre delicados... mas para quem?"

Após o meu workshop, foi a vez de a Sylviane Rigolet apresentar a sua palestra. A Sylviane é uma psicolinguista de nacionalidade Suiça, licenciada em psicopatologia da comunicação e da linguagem e logopedia pela Faculdade de Psicologia da Universidade de Genève, mas acima de tudo, é um ser humano formidável. Ela é a mãe dos Encontros Nacionais de Ilustradores, que têm lugar há cerca de 4 anos em São João da Madeira, e esta viagem foi uma oportunidade de ouro para conhecermos a fundo alguém que já admirávamos antes. A Sylviane é apaixonada por Portugal, e não se cansa nunca de desmistificar as ideias pré-concebidas que todos temos quando comparamos a nossa cultura com a helvética.
O seu workshop foi brilhante, e devo dizer que de certo modo foi uma epifania para mim. Mostrou os muitos exemplos de livros que foram publicados em Portugal e que tratam de temas tabu. Mas, acima de tudo, demostrou até onde se pode trabalhar um livro, e o quanto pode ser fundamental na apropriação e apreensão do mundo por parte das crianças.  Eu já sabia que um livro é um mundo... agora fique a sabe que nele cabe um universo inteiro.
Tudo isto apresentado de uma forma original, apaixonada, teatral, poética e com uma coerência simples e inabalável.



Não é todos os dias que podemos levar umas cuecas para
uma palestra.




Um estendal feito de imagens de livros publicados em Portugal.

Mas que grande surpresa!!! Olha o Cuquedo.



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