Dia#20
Pensei que hoje seria um "(...) uma noite especial, para saborear devagar". Pensei que acabaria definitivamente a ilustração, e seria exactamente isso que teria acontecido se não me sentisse tão doente. De facto, vir hoje à biblioteca foi mais um acto de fé do que racional. Sinto-me com febre e tenho uma dor de garganta tão intensa que chego a acreditar que por descuido engoli uma central nuclear. Mas mesmo assim vim, e não me arrependo nada. A produtividade não foi a mesma e não consegui atingir os objectivos de terminar o trabalho, mas pelo menos não fiquei deitado no sofá, a alimentar ainda mais o orgulho feminino quando afirma que os homens são uns fraquinhos, no que à dor diz respeito.
Á mala-conserva juntei uma pega para a transportar, uma fechadura para proteger a riqueza do seu conteúdo, e o lettering "Maravilha Atum em Azeite" com respectivos elementos decorativos, uma tarefa tão complexa em termos de posição que me vi obrigado a pôr em prática ensinamentos do Yoga e do Kama-Sutra. Mais tarde, afinei as sombras e chamei mentalmente nomes ao universo pela intensidade das dores de garganta.A música, como sempre, preencheu o vazio imenso de uma biblioteca à meia-noite, onde a solidão que se sente rivaliza ironicamente com a presença silenciosa de 50 milhões de personagens que povoam os seus livros: A pop inteligente e sentimental de Bat For Lashes em "Fur and gold"; a magia infantil dos nórdicos Múm em "Go go smear de poison" (a banda sonora do nosso site é desta banda) e o tecno cósmico de Lindstrom e "Where you go i go too".
Paulo Galindro




















































