sábado, 10 de outubro de 2009

Biblioteca Municipal de Carnaxide - Passo-a-Passo 36



Dia#28

Finalmente acabei esta fase. Exactamente às 2.10 da manhã. As horas proibitivas não me impediram de me sentir extremamente feliz por terminar uma etapa longa e difícil. Ilustrar relva e flores em 4 biombos com 4 painéis de MDF cada não foi mesmo nada fácil.  Mas já está. Aborrecido foi mesmo ter de espantar os morcegos que dormiam sossegados à porta para poder sair da biblioteca.
Agora falta aplicar o chão. Confesso que estou um pouco apreensivo com esta fase. Espero que tudo corra como tenho planeado.

A este momento importante dediquei as sonoridades balcânicas e parisienses de "Gulag orkestar" e "The flying club cup" (respectivamente) de Beirut, e o jazz electrónico e espacial de Laika, com os álbuns "Lost in space" e "Good looking blues".

...8...7...

Paulo Galindro

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Biblioteca Municipal de Carnaxide - Passo-a-Passo 35



Dia#27

- O paizinho vai pá bteca! - disse o meu filho Miguel, quando lhes fui dar um beijinho de boas-noites á cama, antes e me ir embora para mais uma noite na biblioteca.
Normalmente não costumo imprimir um ritmo tão desgastante e frenético a um projecto, a não ser quando me confronto com prazos muito apertados, ou quando sinto que um trabalho já devia ter terminado - não  obstante os timings estarem a ser cumpridos - ou quando dois projectos entram em sobreposição. Com este trabalho é um pouco disso tudo. Tem sido um projecto extremamente estimulante, onde tive a oportunidade de experimentar novas técnicas e levantar de novo a fasquia naquilo que pretendo do meu trabalho. Ms também tem sido extenuante, e actualmente já sinto fortes siais de desgaste físico e mental. Para além disso, tenho um novo projecto em mãos com um prazo que já me fez várias vezes praguejar em aramaico e sânscrito.


(pausa: o meu filho acordou da soneca matinal e acabou de entrar aqui no atelier... com uma fralda numa mão e uma almofada noutra, enroscou-se no meu colo enquanto escrevo este post. Haverá alguma coisa melhor do que isto?... Ops! acho que ele está a ficar outra vez com febre. Ate já!)

Mais um dia com o meu filho em casa. Mais uma noite nas lides da jardinagem. Verde, verde, mais verde, e ainda verde. Aos poucos aproximo-me do fim. Hoje mesmo conto acabar definitivamente esta fase.
Na música, optei por um injecção de ritmos galopantes e alucinantes do género psytrance com o colectivo israelita Astral Projection e os álbuns "Amen", "Another world", "Dancing galaxy" e "The astral files".  Até os dedos dos meus pés se encaracolaram.

A contagem decrescente já começou:

10...9...

Paulo Galindro

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Biblioteca Municipal de Carnaxide - Passo-a-Passo 34



Dia#26

Como dizia no post anterior, estou aos poucos a tornar-me numa criatura nocturna... qualquer dia experimento dormir de cabeça para baixo com os pés agarrados ao candeeiro do quarto e os braços cruzados sobre a cara. Só tenho de tomar cuidado com os primeiros raios de sol para não me transformar em pó, e também com dentes de alho em lugares insuspeitos.
E agora, como tenho estado em casa com o meu filhote caçula que está doentito, esta minha vocação noctívaga ainda está mais vincada pois só tenho saído à noite, quando vou para a biblioteca pintar.
Pergunto-me até quando vou aguentar esta vida dupla que tenho vivido nos últimos anos. Ser arquitecto na função pública durante o dia, e á noite, ilustrador, sonhador e muralista. Só o medo pelo futuro dos meus filhos me tem impedido de mandar a minha primeira actividade às couves. Mas sei que mais tarde ou mais cedo atiro-me de cabeça ao meu sonho e mudo de vida... mudamos de vida. Nesse dia vou ser o homem mais leve do universo e mais feliz do mundo. Tenho a certeza de que os meus filhos preferem um pai mais presente, completo, feliz e criativo, mesmo que inseguro financeiramente, do que um pai dividido, triste, ausente, cansado e com um ordenado garantido ao fim do mês.
Mas, neste momento, tenho medo... muito medo desse passo. E o medo retira-me força anímica, paciência e vontade de continuar, combustíveis fundamentais para se aguentar o ritmo que imponho à minha vida.
Mas deixemo-nos de lamúrias. Ontem estive na biblioteca até às 2 horas da manhã, tal foi a intensidade da minha concentração. Quando olhei para o relógio já o atentado à minha saúde estava feito. Continuei a pintura da relva nos biombos, e adicionei-lhes ainda algumas flores.

Na música, fui abençoado pelos sons lindíssimos de Hope Sandoval & The warm inventions (céus! que voz!) em "Through the devil softly", pelas notas épicas dos Editors com o "In this light and on this evening" e  pelo universo de Moby em "Last night" e "Wait for me".

Paulo Galindro

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O tubarão ataca amanhã!



Pois é, meus queridos e amados amigos... amanhã, logo pela manhãzinha, a minha nova aventura no mundo da ilustração de livros infantis vai estar disponível nas livrarias. O livro chama-se "O tubarão na banheira" e foi escrito pelo David Machado e editado pela Editorial Presença. É  uma história muito engraçada e que promete momentos de grande tensão e suspense. Entretanto, podem ver o booktrailer aqui e aqui.

Paulo Galindro

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Biblioteca Municipal de Carnaxide - Passo-a-Passo 33



Dia#25

Hoje é feriado. Trabalhei de manhã, o que é muito raro. Ultimamente tenho sido um animal nocturno, uma vez que desde quinta-feira que tenho estado em casa durante o dia para dar assistência ao meu filho João, que tem estado doente. Hoje já estamos mais descansados pois as febres pararam, mas há uns dias atrás ficámos seriamente preocupados, consequência dos momentos paranóicos em que vivemos actualmente. Porém, no preciso momento em que escrevo estas linhas, o Miguel também está a ficar com febre. Pressinto que amanhã a assistência irá toda para ele. E quando os filhos estão doentes, os pais também ficam... é uma lei universal. O lado bom é que assim fico mais tempo com os meus filhos, o que ultimamente, tenho de admitir com um imenso sentimento de culpa, não tem sido muito frequente.
Hoje terminei a pintura da cor base dos biombos, e comecei já a a definir a expressão das ervas, que tal como o tempero das saladas, é necessária uma certa dose de loucura senão fica tudo demasiado certinho e sem vida.

Na música, talvez por não sentir a minha alma muito colorida, optei pelas sonoridades mais negras e nocturnas dos Massive attack com "Mezzanine" e dos Interpol com o disco de culto "Turn on the bright lights".

Paulo Galindro 

Biblioteca Municipal de Carnaxide - Passo-a-Passo 31 + 32











Dia#23 + Dia#24

Estas duas noites foram uma monotonia tão grande que decidi juntá-las num só post. De facto, tarefas como pintar com rolo 4 biombos com 2 faces cada, e com pincel as respectivas - e mais que muitas - arestas, não fazem propriamente parte do meu conceito de trabalho criativo. Mas como os ingleses costumam sabiamente dizer "It's a dirty job but somebody got to do it". Basta deixar a mente flutuar nas marés musicais, e deixar que o corpo faça o que tem a fazer como se de um autómato se tratasse.

E por falar em música, a seca destas tarefas foi contrariada pelo oceano musical da folk mística dos Six Organs of Admittance e os álbuns "The sun awakens" e "School of the flower", pelas paisagens agrestes e desérticas dos Walkmen com "You & Me" e pela electrónica de fusão oriente / ocidente dos MIDIval PunditZ e os álbuns "MIDIval Punditz" e "MIDIval Times".

Paulo Galindro

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Biblioteca Municipal de Carnaxide: Passo-a-Passo 30











Dia#22

Para hoje tinha planeado terminar os pormenores que faltavam à personagem, e dar uma primeira demão de verde aos 4 biombos. Mais uma vez se provou que tenho um grave problema em prever de uma forma sensata o tempo de execução de uma qualquer tarefa pois normalmente subestimo-o. Começo a aperceber-me que sempre que o faço, o tempo real resvala para um valor próximo do dobro. A estratégia passa por determinar, numa primeira abordagem, os prazos envolvidos nas várias fases de um projecto, para depois lhes aplicar um factor a que os engenheiros carinhosamente apelidaram de "Factor-Cagaço". Ora aí está... nem mais.

Como dizia inicialmente, dos dois objectivos inicialmente estipulados para o dia de hoje, apenas atingi o primeiro. De qualquer forma,

sinto-me muito feliz pois terminei finalmente a ilustração da parede
.

Adicionei umas antenas à personagem (numa clara alusão ao mundo dos insectos, que me serviu de inspiração desde o início) e inseri uma fita preta de seda no livro para lhe marcar as páginas. Estes elementos tridimensionais pretendem criar uma certa ambiguidade com a bidimensionalidade da ilustração, quase como se esta quisesse ganhar vida própria e sair a voar da parede. No fim afinei as zonas sombreadas, as altas-luzes e o contraste geral da ilustração.

No IPod, bem baixinho, a música intimista e algo psicadélica dos Six Organs of Adimittance preencheram-me as pregas dos pensamentos, com os álbuns "Compathia", "Dust & Chimes" e "For Octavio Paz".

Paulo Galindro

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Biblioteca Municipal de Carnaxide: Passo-a-Passo 29







Dia#21

Mais uma vez passámos o dia nas lides de carpintaria. Acabámos a construção dos 4 biombos. Inicialmente eram para ser 5 biombos, mas um erro no escalamento da planta do espaço que me foi cedida no início (e que resultou num pequeno sobredimensionamento do espaço face à área real) e mais tarde, um aumento deliberado das dimensões inicialmente previstas para os biombos, com vista a um total aproveitamento no corte das placas de MDF de origem (que eram maiores que o inicialmente previsto), estiveram na origem da alteração dos planos. Esta alteração de última hora deu origem a uma espaço menos fragmentado, menos cheio e com uma leitura mais contínua e fluida da parede formada pelos biombos, já que estes se apresentam mais abertos e, consequentemente, com menos cantos e esquinas pronunciados.
Após a montagem dos biombos, as inevitáveis imperfeições e os buracos dos parafusos foram regularizados com massa de betume e posteriormente lixados. Esta operação voltou a provocar uma tempestade de pó de proporções bíblicas, que por ser de gesso, ainda se revelou mais agressivo para a pele e vias respiratórias.
Á tarde, o meu filhote Miguel fez-me uma visita. Imagino o quanto a personagem lhe deve ter parecido gigante.

Lá longe, o IPod debitou notas quentes de Jazz, ou, como desde sempre lhe chama o meu filho João, de “Música de Chuva” (a Bossa Nova também foi honrada com esta linda denominação). De facto, esta música aconchegante faz parte do nosso imaginário invernal, repleta de inesquecíveis “picnics” em frente à lareira, enquanto lá fora a chuva risca a paisagem.
Chet Baker, Chet Baker Quintet, Charlie Parker e Django Reinhardt aqueceram-nos o ambiente. Excepção a Mischa Maisky, que tocou Bach e Vivaldi.

Paulo Galindro

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Biblioteca Municipal de Carnaxide: Passo-a-Passo 28







Dia#20

Pensei que hoje seria um "(...) uma noite especial, para saborear devagar". Pensei que acabaria definitivamente a ilustração, e seria exactamente isso que teria acontecido se não me sentisse tão doente. De facto, vir hoje à biblioteca foi mais um acto de fé do que racional. Sinto-me com febre e tenho uma dor de garganta tão intensa que chego a acreditar que por descuido engoli uma central nuclear. Mas mesmo assim vim, e não me arrependo nada. A produtividade não foi a mesma e não consegui atingir os objectivos de terminar o trabalho, mas pelo menos não fiquei deitado no sofá, a alimentar ainda mais o orgulho feminino quando afirma que os homens são uns fraquinhos, no que à dor diz respeito.
Á mala-conserva juntei uma pega para a transportar, uma fechadura para proteger a riqueza do seu conteúdo, e o lettering "Maravilha Atum em Azeite" com respectivos elementos decorativos, uma tarefa tão complexa em termos de posição que me vi obrigado a pôr em prática ensinamentos do Yoga e do Kama-Sutra. Mais tarde, afinei as sombras e chamei mentalmente nomes ao universo pela intensidade das dores de garganta.

A música, como sempre, preencheu o vazio imenso de uma biblioteca à meia-noite, onde a solidão que se sente rivaliza ironicamente com a presença silenciosa de 50 milhões de personagens que povoam os seus livros: A pop inteligente e sentimental de Bat For Lashes em "Fur and gold"; a magia infantil dos nórdicos Múm em "Go go smear de poison" (a banda sonora do nosso site é desta banda) e o tecno cósmico de Lindstrom e "Where you go i go too".

Paulo Galindro

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Biblioteca Municipal de Carnaxide: Passo-a-Passo 27







Dia#19

Ainda não foi hoje que consegui acabar a mala-conserva. São muitos os pormenores e a posição a que me obriga é massacrante mas, pouco a pouco, vou vendo a luz ao fim do túnel transformar-se num lindo e enorme circulo de luz. E agora tenho a certeza de que não se trata de um comboio, mas sim da saída .
3 horas para pintar os livros, a cabeça saltitona e um coração. Dito assim até parece mentira, mas é mesmo assim aquilo que faço. Um imenso exercício zen de paciência.
Amanhã vai ser uma noite especial, para saborear devagar.

A música, essa musa incansável que me acompanha sempre e desde sempre, foi-me oferecida pela sensualidade e o glamour dos Ilya com álbum "They died for beauty", pelo futurismo e a sofisticação dos Massive Atack em "100th Window", no fim, pelas paisagens glaciares de Bjork com "Vespertine"

Paulo Galindro

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Biblioteca Municipal de Carnaxide: Passo-a-Passo 26







Dia#18

Finalmente a cheguei à etapa final do mural... a ilustração da Mala - Conserva. Assente no caule do cogumelo e devidamente aberta para mostrar aos mais curiosos o seu conteúdo, este é um dos mais importantes acessórios da personagem, já que é no seu interior que transporta muitos livros repletos de histórias maravilhosas - que deliciam os 5 sentidos de muitas crianças por esse mundo fora - e muitas outras coisas mágicas e misteriosas, que por vezes saem para cá para fora como se tivessem vida própria. Apesar de ser uma ilustração relativamente pequena, envolve alguma complexidade pela quantidade de pormenores, e, acima de tudo, pela posição extremamente incómoda a que me obriga a estar para conseguir realizá-la.

Na reino dos decibéis, ouvi a música minimal do álbum "Solo Piano" de Philip Glass, a sonoridade sensual e pecaminosa de Astor Piazzola em "The Rough Dancer and the Cyclical Night (Tango Apasionado)" (pintar é dançar com as mãos... e céus, como é estimulante pintar ao som do Tango) e, no final, o virtuosismo de Wolfgang Amadeus Mozart e a sua Sinfonia nº 40 e Serenata. Uma ceia musical irresistível.

Paulo Galindro

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