sexta-feira, 15 de abril de 2011

Como encantar um arco-íris?



















Foi o Sábado passado. Chamei-lhe "Como encantar um arco-íris?" porque é disso mesmo que se trata. Quando pintamos, na essência estamos a brincar com o espectro de luz visível aos nossos olhos. São muitas as cores que nos são invisiveis - os infravermelhos e os ultravioletas - mas acreditem, aprender a dominar as "poucas" cores que fazem vibrar os olhos da nossa espécie é um trabalho de uma vida, e o nome daqueles que o conseguiram ficou gravado na história da humanidade. Da minha parte, procurei transmitir o muito pouco que aprendi até agora a quem participou nestde workshop. Falei um pouco da ilustração, das técnicas que utilizo (ou da ausência delas), do estilo (ou melhor, da ausência dele), mostrei algumas dezenas de originais, incluindo aqueles que integram os meus dois últimos livros (que adorei fazer,  e que serão lançados no próximo dia 14 de Maio, na Feira do Livro, mas disso falarei aqui mais tarde), e por fim, lancei o desafio para a concepção de uma ilustração a partir da escolha de um de dois textos retirados do livro "Beija-mim" de Jorge Araújo.
Foi a primeira vez que fiz um workshop tão prático, e sei que vou repetir até porque já existem inscritos em lista de espera.


quinta-feira, 14 de abril de 2011

Ilustrar é Ler Mais




























Devido ao tremendo fluxo de trabalho a que tenho sido sujeito nas últimas semanas, tem sido muito difícil para mim conseguir arranjar algum tempo para actualizar este blog, e muito menos para o facebook, que é uma verdadeira máquina de queimar tempo em procrastinações inúteis (De facto, todas estas formas de comunicar com mundo servem para mostrar a esse mesmo mundo o quanto temos uma vida interessante, mas depois não temos tempo para simplesmente vivê-la e torná-la interessante por passarmos muito tempo online). Assim sendo, e de forma a actualizar tanto quanto possível os últimos dias, faço questão de colocar aqui algumas imagens de um encontro com as crianças de algumas das escolas de Lisboa, que aconteceu na Biblioteca Municipal de Camões, no âmbito do evento "Ilustrar é Ler Mais". Este evento, que já vai na sua 3ª edição, é realizado em parceria com as escolas, e envolve uma série de iniciativas em torno do trabalho desenvolvido por dois ilustradores... neste caso eu e a Marta Torrão.
Gosto destes encontros com as crianças, porque, de alguma forma, sinto que o ciclo se completa. Neles posso também falar de todos aqueles pequenos grandes segredos que envolvem a ilustração de um livro.

Aproveitei ainda esta oportunidade para conhecer uma biblioteca emblemática e muito velhinha, que não obstante o seu mau estado (parece que vai para obras, isto se o FMI deixar), tem o charme irresistível de um tempo que passou para sempre. Para recordar, uma vista maravilhosa sobre o Rio Tejo, pano de fundo de um gigantesco origami feito com telhas de canudo.

terça-feira, 29 de março de 2011

O universo todo do Miguel, numa folha de papel

"Eu, a Skye, o Pai, o Mano e a Mãe"
por Miguel, em 2011
Pastel sobre papel

O universo do Miguel, especialmente desenhado para mim.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Vida de Cão(dela)


Há poucos dias esterilizámos a Skye. Apesar de altamente recomendada pelo veterinário, não vou dizer que foi uma decisão fácil, muito pelo contrário, pois estamos a mexer com algo que faz parte da sua essência feminina. Mas quando não se quer ter ninhadas - que é o caso - é a melhor coisa que se pode fazer por uma cadela, muito especialmente no que se refere a doenças do foro oncológico. Como senão, temos de ter mais cuidado com a alimentação e com o exercício físico dela, pois existe alguma tendência para engordar. A operação foi rápida, e a recuperação de fazer inveja aos humanos. No entanto, o suplício dela ainda agora começou. Primeiro teve que usar uma gola isabelina (é esse mesmo o nome, e não é difícil perceber porquê); depois descobrimos que ela conseguia coçar a cicatriz com as arestas da gola (?!?!?!!?), e com as patas (o que aumenta o perigo de infecções), o que nos obrigou a vestir-lhe uma t-shirt, que lhe deu o ar de Fashion Victim que está na fotografia (o ar desolado é pura fita... faz parte da pose de Top Model... dah!)

Não sei qual vai ser a vingança dela quando lhe tirarmos estes adereços. Na dúvida o melhor é fechar a gaveta onde tenho a roupa interior à chave.

sábado, 26 de março de 2011

Eu quero envelhecer assim








A propósito do post anterior, onde fiz a apologia dos transportes públicos e das suas vantagens e desvantagens, uma das mais-valias que referi foi o a tremenda experiência humana que é conviver directamente com pessoas de todos os extractos sociais, num ambiente verdadeiramente democrático (num transporte público todos somos, em certa medida, iguais), e da possibilidade de subvertermos o nosso percurso habitual, com todo o potencial de novas experiências que daí podem advir. E esta subversão é, de facto, uma das coisas que mais gosto de fazer. Basta alterar um pouco o meu trajecto - ir pela Rua Augusta e Chiado - e deparo-me com experiências destas... poder conviver um pouco com este senhor, de nome Yarets Vladimir Alekseevich, com 70 anos, e que em 2000 decidiu dar a volta ao mundo de mota. Começou na sua terra-natal, Minsk, na Bielorrússia, e ao todo já fez cerca de 740.000 km  (3 vezes mais do que eu), e já passou por todos os países assinalados no mapa (em Outubro de 2010 eram 69 países). Estivemos a falar um bom bocado... por gestos, e não devido a constrangimentos linguísticos, já que Yarets é surdo-mudo. Podem acompanhar esta viagem iniciática através da sua página pessoal.
Eu, por mim, não me importava nada de envelhecer assim.

O caminho faz-se a andar




Vivo em São Domingos de Rana. Trabalho no Barreiro.
São aproximadamente 50 km , 2 horas de viagem (i.e., 100 km em 4 horas diárias) em 4 transportes públicos (TP).
E já que falo de números, em 9 anos, e durante quase 9000 horas já percorri aproximadamente 220.000 km em transportes públicos, o que significa que já dei quase 6 voltas ao nosso planeta (que tem um perímetro aproximado de 40.000 km). E isto só contabilizando o tempo em que trabalho no Barreiro, porque desde os 18 anos que ando de transportes, e sempre aproximadamente à mesma distância casa - trabalho.

Enquanto faço uma pequena pausa para tomar um frasco de anti-depressivos do tamanho da minha cabeça pelos números acima referidos, quem neste momento me está a ler irá pensar uma de duas coisas: ou sou masoquista, ou estou com excesso de tempo livre. No que se refere à primeira razão, talvez até haja um fundo de verdade.  Quanto à segunda razão, muito pelo contrário. Nuca tive tão pouco tempo livre na minha vida. Na verdade, tenho neste preciso momento uma ilustração aqui mesmo ao meu lado que sei me roubará umas boas 10 horas. Ao fazer este post, estou na verdade a "fugir com o rabo à seringa", ou, em termos mais técnicos, a procrastinar.

Sabem, não obstante as greves, as avarias, a filas, os apertões e empurrões, o calor infernal no Verão, os ares condicionados avariados, os atrasos, as discussões, os temporais (quem já fez a travessia do Tejo de barco num dia tempestuoso sabe do que estou a falar), o stress dos horários, os suicídios (é muito triste, mas ocorrem em determinados períodos do ano, o que dava um bom estudo sociológico), o andar carregado de tralha, a imbecilidade de alguns funcionários, na verdade, gosto muito de andar de TP.
Durante um ano da minha via, decidi dar o benefício da dúvida ao carro, mas depressa cheguei à conclusão ter sido uma das coisas estúpidas e caras que decidi fazer. Sinceramente, não consigo perceber onde está o conforto em estar fechado num cubículo com 2 m2, cercado por todos os lados por um mar de chapa, plástico, vidro, CO2 e buracos de ozono, onde a única coisa que posso fazer é observar o senhor da fila da direita a degladiar-se para arrancar os pêlos dos ouvidos, a senhora da fila da esquerda a fazer prospecção e introspecção nasal, o casal do carro de trás a tentar interpretar em buzinadelas "A Cavalgada das Valquírias" de Wagner, e, á frente, uma manada de energúmenos que, com o enorme sentido cívico que caracteriza os portugueses, tudo fazem para furar a fila e enganar tudo e todos, pisando traços contínuos e fazendo todo o tipo de manobras perigosas enquanto exercitam orgulhosamente o dedo médio e pensam no quanto são espertos e os outros, por oposição, parvos. E, muito especialmente, não tenho a mais pequena pachorra para todos aqueles que se dedicam a defender animosamente o ambiente, a ecologia, a mobilidade sustentável, os TP, a bicicleta, o andar a pé, num fervilhar de discursos e palestras e iniciativas cheios de boas intenções, mas que, por nenhuma razão em especial, nunca puseram os pés num TP em percursos casa-trabalho curtos e bem servidos de transportes, e quem nem mesmo os preços de ourivesaria dos combustíveis e um país que se está a afundar parecem querer fazer mudar de ideias, e que usam como alibi a ideia de que os TP não funcionam, cegos para o facto de que é exactamente o excesso de carros que provoca muitos dos problemas nos TP.

É verdade que se torna muito cansativo, e por vezes desesperante. Quem me conhece sabe os efeitos que em alguns dias - especialmente a partir da 4ªs feiras - tem em mim, mas mesmo assim, adoro andar de TP. Permite-me ler muitos bons livros, desenhar e pintar (todos os trabalhos de ilustração que fiz até agora nasceram nos TP), ouvir música, dormir, sonhar acordado, deliciar-me com a paisagem e com nascer e pôr do sol gloriosos, mudar de trajecto, conhecer pessoas, ouvir pessoas, falar com pessoas, atender telefonemas dos meus amigos, beber um café, assistir no meu telemóvel a inúmeras e inspiradoras conferências TED, andar a pé, manter a linha, amar o coração, apanhar chuva, sentir o vento que vem do rio, dar o meu humilde contributo para que o mundo não perca as cores, ou, porque não, fazer absolutamente nada enquanto alguém me conduz ao trabalho.
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