terça-feira, 13 de dezembro de 2011

25 ilustrações para o Hospital Amadora - Sintra VI

"Um lugar lá em cima, no topo do mundo"
por Paulo Galindro
Acrílico, lápis-de-cor, lápis-de-cera, pastel e canetas "Posca"
sobre MDF de 3mm, 1.00 x 1.00 m
Novembro 2011
"Vou para a minha casa"
Por Natalina Cóias
Acrílico, Lápis-de-cera, pastel e canetas "posca"
sobre MDF de 3 mm, 1.22 x 1.22 metros
Dezembro 2011




"Naquela noite, olhei para cima... Céus... as estrelas. Nunca tinha visto tantas. O céu resplandecia de estrelas.
O meu pai explicou-me.
Precisamos do verdadeiro escuro, para ver as estrelas. Na cidade há demasiada iluminação nas ruas e coisas assim. Mas quando as coisas estão realmente escuras, o mais escuro que podem estar, vê-se muito mais. Tantas coisas maravilhosas, velho filho.
Por vezes, as coisas vão ficar mais escuras para ti do que ficarão para o resto das pessoas. Mas tens de encarar esses momentos como algo especial, porque te estão a mostrar coisas. É uma maneira de olhar o mundo, que mais ninguém nunca entenderá. É uma benção, não uma maldição. Entendes? Faz algum sentido para ti, meu filho?" 
Heartless
Um filme de Philip Ridley


Mais duas ilustrações para o Hospital Amadora - Sintra.
Quanto à minha ilustração, tem algo de biográfico (como todas as ilustrações que faço). Confesso que não me importava nada de, neste momento, passar uns tempos num sítio como este, bem quietinho, a ouvir toda a discografia de Sigur Rós e Brian Eno, enquanto relia o "Tao Te Ching", de Lao Tzu tantas vezes quantas as necessárias para perceber na íntegra este poema fabuloso.
Mas, na verdade, o que esta ilustração fala não é de escapismo, mas sim de perseverança, esperança e força de vontade e de todos os obstáculos que por este caminho são vencidos, mesmo aqueles que parecem intransponíveis, como a mais alta montanha do mundo. E quando lá chegamos acima, podemos sempre lançar uns aviões de papel cá para baixo, com textos de Fernando Pessoa.

Quanto à ilustração da Natalina, lembra aos pais dos pequeninos seres humanos que tiveram pressa para ver este mundo maluco - e que ainda vivem dentro das incubadoras - que com esperança, toque, palavras carinhosas e a perseverança dos super-heróis de bata que ali vivem, mais depressa do que pensam vão estar em casa.

domingo, 11 de dezembro de 2011

25 ilustrações para o Hospital Amadora - Sintra V

"O lugar mais aconchegante"
por Paulo Galindro
Acrílico, lápis-de-cor, lápis-de-cera, pastel e canetas "Posca"
sobre MDF de 3mm, 1.22 x 0.88 metros
Dezembro 2011
"Os bichos"
por Natalina Cóias
Acrílico, Lápis-de-cera, pastel e canetas "Posca"
sobre MDF de 3mm, 1.22 x 1.00 metros
Dezembro 2011

Estive à espera da meia noite, para poder fazer isto... Aqui vão mais duas ilustrações que fizemos para os corredores da Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais e Pediátricos do Hospital Amadora - Sintra.
A inauguração vai ser já hoje, pelas 12:30.

25 ilustrações para o Hospital Amadora - Sintra IV

"Um lugar iluminado, que vive dentro de ti"
Acrílico, lápis-de-cor, lápis-de-cera, pastel e canetas Posca
sobre MDF de 3 mm, 0.80 x 1.22 metros
Novembro 2011

"Todas as cores dos meninos às cores"
Acrílico, lápis-de-cera, pastel e Canetas "Posca"
sobre MDF de 3mm,  1.22 x 1.22 metros
Dezembro 2011



Mais duas ilustrações para o Hospital Amadora - Sintra, desta vez feita de luz.

sábado, 10 de dezembro de 2011

25 ilustrações para o Hospital Amadora - Sintra III



"Contigo, sei que um dia chegarei até ao Sol"
Por Paulo Galindro
Acrílico, lápis de cor, lápis de cera, pastel  e canetas Posca
sobre MDF de 3 mm, 0.61 x 1.22
Novembro 2011

"Embalanço"
Por Natalina Cóias
Acrílico, lápis de cera, pastel e canetas Posca
sobre MDF de 3mm, 0.80 x 1.22
Novembro 2011

Tal como prometido, aqui estão mais ilustrações para a Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais e Pediátricos do Hospital Amadora - Sintra. Quanto à minha ilustração, qualquer parecença fisionómica não é pura coincidência.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

25 ilustrações para o Hospital Amadora - Sintra II

"Um lugar infinito, logo ali"
por Paulo Galindro
Acrílico, lápis de cera, lápis de cor, pastel, canetas Posca
sobre MDF de 3 mm, 1.22 x 1.00 metros
Novembro 2011

"Um presente para nós"
por Natalina Cóias
Acrílico, pastel e canetas Posca
sobre MDF de 3 mm, 1.00 x 1.22 metros
Novembro 2011

A Unidade de Cuidados Intensivos (CI) Neonatais e Pediátricos fica mesmo no coração do Hospital Doutor Fernando da Fonseca. E o simbolismo desta localização não poderia ser o mais apropriado. Já o afirmei aqui... É de facto um lugar onde nenhum de nós gostaria de estar. Um lugar onde o fim do mundo nos pode chegar aos trambolhões, e da forma mais inesperada, porque ali, uma das leis mais básicas da natureza é subvertida... Nascer, crescer, aprender, envelhecer e morrer... Um ciclo que afinal pode não chegar nunca a sê-lo.

Mas é também um lugar onde tudo o que de mais nobre define um ser humano se mostra gloriosamente, sem preconceitos, sem raças, sem religiões, sem limites impostos por passaportes. E acima de tudo... um lugar de Esperança... isso mesmo, com um E grande. E na base desta maiúscula que vai até ao céu, está uma equipa de médicos, enfermeiros e auxiliares, que com um carinho e atenção de fazer inveja a muitos pais, se dedicam de corpo e alma a tornar o E ainda maior.
Este projecto que agora terminamos é por isso mesmo dedicado a estas pessoas. E também às crianças que ali estiveram, estão e estarão. E aos pais que não desistem nunca, mesmo quando o universo parece ter desistido deles.


A ideia subjacente ao meu intervenção, que incidiu totalmente na ala de CI de Pediatria - e que por isso mesmo abrange uma faixa etária que vai dos 0 aos 17 anos - foi ilustrar uma série de lugares contemplativos, que falassem muito baixinho. Lugares espiritualmente apaziguadores, mas cromáticamente vibrantes, onde todos nós, de uma forma ou de outra, gostariamos de estar nem que fosse por uns minutos.
A ilustração que apresento acima é profundamente biográfica, pois inspira-se num sonho que tive há uns anos atrás, e que me tocou profundamente:

Lentamente, muito lentamente, saio do meu corpo, como se estivesse a nascer novamente. Elevo-me, toco o estuque do tecto, que não oferece resistência. Atravesso-o, atravesso o betão, atravesso toda a matéria que existe entre mim e o céu. Voo, cada vez mais alto, cada vez mais etéreo. passo por pingos de chuva que nem me molham porque eu não tenho um corpo para molhar. Furo as nuvens, cuja humidade se cola ao meu corpo, deixando um rasto de vapor de água à medida que eu, cada vez mais leve, cada vez mais rápido, ascendo. Chego às camadas mais altas da estratoesfera, olho para trás e vejo o nosso planeta, cada vez mais longe, cada vez mais pequeno, cada vez mais azul. Liberto-me ds atmosfera, liberto-me da força gravitacional, e sinto-me livre como nunca me senti. Passo por Marte, maravilho-me com Júpiter, ando no carrossel que envolve Saturno. Urano, Neptuno e Plutão passam por mim. E eu, cada vez mais rápido, cada vez mais leve, entro no espaço profundo. Rio-me à gargalhada, mas nada se ouve, porque no vazio nada se pode ouvir. Estendo as mãos, toco em poeira cósmica, que deixa uma cauda atrás de mim, como um cometa. Rio-me às gargalhadas...

... acordo...



... e ainda me estou a rir às gargalhadas. Nas minhas mãos persiste o frio do pó de um milhão de estrelas*.


A ideia subjacente à intervenção da Natalina - que incidiu na ala de CI Neonatais - foi a magia de se ter um filho, e no milhão de cores que esperam por ele cá fora, quando crescer e puder sair do ambiente controlado da incubadora, que emula o útero da mãe. O traço e a estética característica da Nat - aconchegantes e calorosos - cairam que nem uma luvam neste ambiente, reforçando a ideia de que, quando uma criança nasce tão cedo, a sua sobrevivência recai em grande parte nos laços e no toque que se criam com os pais

(*) E não... não fumei nem tomei nenhuma substância ilegal.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

25 Ilustrações para o hospital Amadora - Sintra I


"Um lugar só para nós"
por Paulo Galindro
Acrilico, Lápis de cor, lápis de cera, pastel e canetas Posca
sobre MDF de 3 mm, 0.86 x 1.22 metros
Novembro 2011


"Um presente para ti!"por Natalina Cóias
Acrílico, pastel e canetas Posca
sobre MDF de 3 mm, 1,22 x 1,22 metros
Novembro 2011


Foi hoje o dia da montagem das ilustrações que eu e Natalina concebemos para integrarem os corredores dos Cuidados Intensivos Neonatais e Pediátricos do Hospital Professor Doutor Fernando da Fonseca - Amadora, também conhecido por Hospital Amadora - Sintra, um projecto feito em parceria com o Clube da Água / Serviços Municipalizados de Água e Saneamento de Oeiras e Amadora.
Foi o dia todo a fazer buracos com berbequim para preencher com buchas, anilhas e parafusos, a subir e a descer o escadote, a verificar o alinhamento e espaçamento entre as várias ilustrações (eu e o meu pai, que foi uma ajuda valiosíssima), e também a pintar as áreas em torno das portas das salas de cuidados neonatais e pediátricos (a Natalina). Não foi uma tarefa nada fácil. Na verdade, posso mesmo afirmar que foi a mais difícil que já tivemos no âmbito da marca Pintarriscos. Não que fosse particularmente complexa em termos técnicos. Não o foi, de facto. Foi muito difícil exactamente por ser o que é, uma unidade de cuidados intensivos neonatais e pediátricos. Um lugar onde, numa das alas, minúsculos seres humanos que quiserem nascer cedo de mais lutam a cada segundo para crescerem milímetro a milímetro, num útero feito de plástico, antecipadamente acarinhados por pais angustiados e por médicos e enfermeiros dedicados. Noutra das alas, crianças que podem ter 1 ano de idade, mas também 17, sofrem, e muito. E algumas da vezes morrem mesmo, assim, contra toda a lógica natural do mundo. Um pai nunca deveria ver um filho morrer. Mas foi exactamente isso que aconteceu logo de manhã, assim que começamos os trabalhos... um bébé com 1 ano morreu de meningite a poucos metros de nós, e o universo inteiro a desabar para uma família que, desamparada, daria tudo o que tem, o que não tem e o que virá a ter, para não estar ali, a ouvir aquela maldita notícia. E eu com um berbequim nas mãos, e a natalina com pincéis e tintas. Sem vontade para mais nada que não fosse sair dali. Quebrámos. A Natalina mais do que eu. Mas quebrámos... qual o verdadeiro sentido do que estávamos ali a fazer para aquela família. Absolutamente nenhum. absolutamente Nada... que merda!

Bem vindo à vida e aos seus contrastes.

Não... não é um lugar agradável, nem nunca o será. Fizemos um esforço hercúleo para não sairmos dali a correr a 7 pés, para nunca mais voltarmos. Mas a nossa missão, aquela que nos incumbiram, foi tornar aquele lugar num lugar mais bonito, vibrante e energicamente mais positivo.
A arte pode ajudar a curar o corpo e o espírito. Nem que seja uma molécula apenas. Se isso acontecer já valeu a pena.
E foi a isso que nos agarrámos. A cada segundo das 11 horas que ali passámos.
O nosso trabalho não ficou completo... não colocámos 2 ilustrações, porque ainda não estão terminadas. Sábado de manhã voltaremos lá. Tudo o resto está no sítio que lhe foi destinado. Por isso mesmo, apenas colocarei aqui imagens do espaço quando acabarmos tudo.

Por agora, darei início à apresentação diária de duas ilustrações... uma minha, outra da Natalina.

Espero que gostem. E desejo, do mais fundo do meu coração,
que nunca, nunca tenham de as ver ao vivo.




Nota final: O trabalho correu muito bem, mas não sem que apanhássemos um grande susto. Quando estávamos a acabar de instalar a última ilustração, apareceram uns electricistas que nos informaram que uma parte do hospital estava às escuras, muito provavelmente porque um dos 8 parafusos das 23 ilustrações que montámos teria literalmente furado um cabo eléctrico. Se isso aconteceu, eu nem me apercebi disso. Podia ter apanhado um enorme choque eléctrico. Provavelmente até me teria crescido espontaneamente uma enorme cabeleira  estilo heavy-metal anos 80 na minha careca, e na verdade, nem me apercebi disso. E o que dizer da simples ideia de desmontar todas as ilustrações?
A sorte viria de uma enfermeira que se apercebeu que algo não estava bem com a electricidade no exacto momento em que estávamos a montar uma ilustração perfeitamente identificável por ela. E logo no primeiro parafuso retirado apercebemos-nos de uma bucha completamente queimada, e de um cabo eléctrico furado exactamente no meio. E eu que pensava que nos hospitais, todas as cablagens e tubagens andam pelos tectos falsos.
Lição aprendida.


segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

25 ilustrações para o Hospital Amadora - Sintra



"Um lugar esvoaçante", por Paulo Galindro
Acrílico, lápis de cor, lápis de cera, pastel, canetas Posca
sobre 2 painéis de MDF de 3 mm
2,20 x 2,20 metros
Outubro de 2011



Da autoria da Natalina: Pormenor
Da minha autoria: Pormenor



Como já tive a oportunidade de informar aqui e aqui, eu e a Natalina temos estado estamos a desenvolver uma série de 24 ilustrações, na sua maioria de grande formato, para integrarem os corredores dos Cuidados Intensivos Neonatais e Pediátricos do Hospital Professor Doutor Fernando da Fonseca - Amadora, também conhecido por Hospital Amadora - Sintra. Trata-se de um projecto Pintarriscos, feito em parceria com o Clube da Água / Serviços Municipalizados de Água e Saneamento de Oeiras e Amadora.

Ao fim de várias meses a trabalhar em regime de exclusividade neste projecto para nós tão importante, é com um infinito prazer que posso informar que a partir da próxima quinta-feira - o dia em que iremos colocar as ilustrações nas paredes do referido espaço (numa maratona que envolverá mais de 200 buracos feitos com berbequim) - irei mostrar, todos os dias, 2 ilustrações da minha autoria (num total de 10, já contando com aquela que apresento no início deste post) e da autoria da Natalina (num total de 14).

A inauguração deste espaço será no próximo dia 12, pelas 12:30.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Os diários de Varsóvia III



Algumas fotografias do dia anterior, que por lapso não integraram o último post:
O Bairro judeu, que os nazis converteram num gueto, onde as condições de vida
se degradaram a um nível sub-humano.


Um pátio do Gueto

No 3º dia de manhã aproveitámos para passear novamente pela zona antiga da cidade, e para nos deixarmos perder por zonas que ainda não tínhamos visitado. Quando visito uma cidade, gosto de me munir de uma planta da mesma. Contudo, confesso que muitas das vezes, especialmente nos dias seguintes, gosto de abandonar o mapa no fundo de um bolso e deixar-me ir ao sabor da intuição. Perdem-se os típicos lugares turísticos, ganha-se na descoberta de lugares verdadeiros onde verdadeira vida decorre alheia à nossa presença. Em Roma, sê romano!









O meu lado gótico deixou-se hipnotizar por este belíssimo
portal de uma igreja de Jesuítas.







De pedra, ou de carne e osso?

Os eléctricos são lindíssimos. Com um design tipicamente russo,
sente-se que foram construídos  para durar.



2 edifícios, com 60 anos de diferença. Descubram as diferenças.


A Sylviane Rigolet foi uma companhia adorável.


Tal como os eléctricos, os autocarros têm uma estética russa muito vintage.



Nesse dia de manhã não nos podemos afastar muito, pois logo a seguir ao almoço estava marcada a minha palestra, a ter lugar novamente no Atelier Foksal. Tal como já tinha ensaiado no 4º Encontro Nacional de Ilustradores em São João da Madeira, a minha palestra teve como título "Tabus & Histórias de Amor". Com a duração aproximada de 1.15 h, tive a oportunidade de falar dos meus livros "Sabes que também podes ralhar com os teus pais?" e "Sabes onde é que os teus pais se conheceram?", ambos escritos pela jornalista Maria Inês de Almeida e editados pela editora Booksmile, e ainda de algumas ilustrações que tocaram de alguma forma o Tabu.
Uma vez mais, os meus maiores receios quanto à distância linguística revelaram-se infundados, pois a Dorota foi incansável no seu papel de interprete. Curiosamente, a reacção de quem assistiu à apresentação do 1º dos livros acima referido foi totalmente normal. Julgo que nem sequer entenderam porque razão o tema foi de certo modo mal recebido em Portugal, como de facto foi, tal como pude assistir em primeira mão. Em todas as vezes que apresentei o livro publicamente houve sempre quem o considerasse um Manual de Subversão Infantil extremamente perigoso, por colocar o poder e autoridade paternal em causa, não obstante eu salvaguardar sempre o princípio construtivo subjacente, e ainda o facto de que eu próprio me revejo enquanto pai em muitas das situações retratadas. Houve mesmo um embargo - temporário mas ainda assim não deixou de ser um embargo - de uma conhecida livraria. Enfim.



Eu, e a Dorota

A Teresa Starzeg, co-fundadora do Atelier Foksal que se revelou
uma pessoa tão colorida e marcante como as suas roupas.




A Teresa Starzeg e o Andrzej Bielawski, fundadores do
Atelier Foksal e artistas plásticos de renome na Polónia.

Senti uma empatia tão grande com a ambiência e o espírito que se vive no Atelier Foksal, que confesso que me sinto tentado a aceitar o convite de Teresa e Andrzej para ir viver uns meses para Varsóvia, no âmbito das residências criativas proporcionadas pelo próprio atelier, ainda para mais com a intensa degradação do nível de qualidade de vida que se prevê nos próximos tempos para o nosso país. A ver vamos.

O resto do dia e a manhã do dia seguinte - o voo estava marcado para a tarde de 2ª feira - foram dedicadas exclusivamente à boémia, com muito chocolate quente, vodka, comida e compras de livros à mistura.
O chocolate é uma das masiores tentações do polacos. Esta é a
chocolateria de culto de Varsóvia. E garanto-vos que beber chocolate quente numa
cidade fria como Varsóvia é uma experiência única



Marley e eu.
Tenho de deixar crescer o cabelo para fazer umas rastas.


Do widzenia do następnego razu. Mamy już wiele wspomnień.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Os diários de Varsóvia II

Eu, e a Sylviane Rigolet à porta
do Museu da Resistência de Varsóvia
Dia#2

No 2º dia em Varsóvia, Sábado mais precisamente, guardamos o período da manhã para visitarmos o famoso Museu da Resistência de Varsóvia (Muzeum Powstania Warszawskiego), que se localiza na rua Grzybowska, numa antiga central eléctrica recuperada para o efeito. Varsóvia foi uma das cidades mais fustigadas pelos alemães e as suas muito conhecidas tendências expansionistas. Seria politicamente correcto dizer "pelos nazis", mas hoje, mais do que nunca, considero que esta é uma visão redutora, simplista, e perigosa até, por que renega uma visão muito mais abrangente da história, e acima de tudo, da actualidade. De facto, sem toda a parafernália gráfica, estética, de indumentárias, de discursos pseudo-místicos, de busca pelo Santo Graal, de teorias de Eugenia e de campos de extermínio que caracterizaram o nazismo, verifico com grande tristeza que a velha máxima que afirma que a história se repete a si mesma até aprendermos algo com ela, é hoje mais do que nunca verdade. Podemos de facto observar em primeira mão que este fenómeno expansionista e de controlo não terminou nos anos 40, e actualmente verifica-se de uma forma não tão subtil como gostariamos de acreditar, onde "apenas" se trocaram as armas pelos mercados. Só posso fazer votos que a o ciclo histórico fique por aqui e não vá tão longe como noutras épocas.

Alguns brinquedos da época





O pequeno insurgente... um homenagem a todas as crianças
que se juntaram aos adultos na luta contra os nazis...
e foram muitas.





Confesso que fiquei fascinado por esta fotografia.
A beleza no meio o horror.
Este museu pretende fazer uma homenagem merecida a todos os seres humanos que heroicamente fizeram frente ao avanço do demónio germânico. Pessoas como qualquer um de nós - homens, mulheres, crianças, idosos - na maior parte das vezes sem quaisquer conhecimentos militares, que lutaram com tudo o que tinham à mão mesmo sabendo que no final seriam aniquilados. A sua arma mais forte foi a convicção de quem já não tem nada a perder. E essa é uma arma poderosa. Contudo, o seu sacrifício não seria em vão... a sua perseverança serviria de inspiração aos sobreviventes e às gerações seguintes para erguerem novamente a cidade.
São salas e salas de cheias de memorabilia, de objectos perdidos, de fragmentos de vidas estilhaçadas, de armamento, de sons de bombardeamentos, de imagens e vídeos atrozes (sempre dentro de umas caixas de cimento com paredes altas, deste modo devidamente protegidos dos olhares dos mais pequenos), de fotografias de todos aqueles que pereceram neste apocalipse, e que de outro modo seriam para sempre anónimos. Mas estas salas também estão cheias de tudo aquilo que torna o Ser Humano glorioso... coragem, altruísmo, dignidade, perseverança. esperança e, acima de tudo, amor.



Não me importava nada de percorrer as estradas do Alentejo
numa coisinha destas...



... e de dar uma volta ao mundo num pássaro destes, mas pintado
com 1000 cores pela Pintarriscos.


Informaram-me que o comunismo é proibido na Polónia.
Não sei em que moldes esta interdição é aplicada,  mas o ódio é
tanto que os polacos decidiram, num gesto de ironia,
transformar a antiga sede do partido na Bolsa de Valores
de Varsóvia


Estes avisos estão espalhados por toda a exposição, e revelam bem
o acervo de imagens de arquivo absolutamente brutais
do que foi a invasão alemã
Sem palavras

A visita a este museu não é fácil, nem nunca poderia ser. Como tratar um tema tão brutal e violento de uma forma leve, agradável e politicamente correcta? A Natalina e a Sylviane sentiram a necessidade de sair antes do fim, pois em alguns pontos o ambiente torna-se mesmo muito, muito pesado. Eu obriguei-me a ir até ao fim, mas por vezes não foi uma tarefa nada fácil. O que torna este museu verdadeiramente chocante é que, de alguma forma nos faz olhar para dentro de nós mesmos. Cada uma daquelas pessoas poderia ser eu, os meus filhos, tu. Esta é a grande lição da História... Não se trata uma mera actividade humana que se limita a coleccionar factos e objectos do passado. É sim um aviso ao futuro: se não aprenderes comigo, tudo isto se repetirá, e de formas bem mais sofisticadas.
Um facto curioso... em nenhum ponto deste museu se encontra uma fotografia de Hitler, por se considerar que mais pequena imagem poderia ser uma homenagem à besta em questão.



Considero a visita a estes locais não uma opção mas um imperativo. Tivesse eu mais tempo e teria viajado os 300 km que separam Varsóvia de Auschwitz - Birkenau, não por ser um passeio agradável - muito muito longe disso - mas por ser um dever que todos temos para com os 6.000.000 de seres humanos que desapareceram nos campos de extermínio. O dever de não esquecer, e acima de tudo não fingir que nunca aconteceu.

Esta imagem em grande formato deixa qualquer um chocado...
os últimos segundos de vida de um homem.




A inspiração da resistência polaca bem patente na inscrição desta pedra




À saída do museu, e aproveitando uma manhã dedicada à 2ª Guerra Mundial, fomos visitar o muito pouco que resta do gueto onde os judeus foram confinados - onde a fome, as doenças e as deportações reduziram uma população 380 000 habitantes para 70 000 habitantes - e que em 1943 os alemães dizimaram completamente. Segundo nos apercebemos, estão a ser realizadas obras de recuperação destes edifícios para apartamentos e escritórios. Apesar de me ter chocado a ideia de viver num sítio com uma história de sofrimento tão pronunciada (nós por cá também temos situações destas, como é o caso da sede da antiga polícia política, PIDE, situada no número 22 da Rua António Maria Cardoso, em Lisboa, que está a ser transformada num condomínio de luxo) a verdade é que parece haver uma vontade por parte dos polacos em "apagar", ou "atenuar" uma memória demasiado dolorosa, para desta forma poderem olhar de frente um futuro sem fantasmas. Não critico, mas sinto que com o tempo vem o arrependimento de se terem tomado este tipo de decisões. Ainda que cheio de gruas e andaimes, não pude deixar de sentir uma imensa tristeza neste local, onde cada pedra, cada tijolo, conta a história de uma realidade que para a minha geração é, felizmente, até agora, inimaginável.


O que resta do antigo gueto judeu



Um pouco por todo o lado surgem edifícios ultra-modernos, que contrastam
com a carga histórica e simbólica desta cidade... e ainda bem!




Workshop para crianças "Pintar, desenhar, sujar e rasgar – tudo serve para ilustrar"

Nesse mesmo dia, durante a tarde, dei um workshop para crianças. Todos os eventos tiveram lugar no Atelier Foksal, que é a materialização ao pormenor de um sonho há sonhado por mim cá para Portugal... um edifício totalmente ocupado por um imenso atelier, onde se aplica a 100% o conceito de educação pela arte. Fundado por um adorável casal de artistas plásticos de renome em Varsóvia - Teresa Starzeg e Andrzej Bielawski - neste espaço são abordadas todas as artes criativas. E quando digo todas, é mesmo todas... nada fica de fora. O público alvo são as crianças dos 0 aos 110 anos, a quem são ministrados workshops, palestras, encontros com artistas plásticos de todos os quadrantes, residência criativas, curso de médio e longa duração, preparação para a universidade, terapia pela arte, e um imenso étecétera.
Confesso que andava muito preocupado com o facto de a diferença abismal entre as nossas línguas poder ser uma barreira intransponível na criação da tão necessária química para que estas oficinas dêem frutos. No entanto, essa preocupação revelou-se infundada. Graças ao apoio da Dorota na tradução, tudo correu na perfeição. A Dorota que estudou a fundo a cultura portuguesa na universidade nas suas mais variadas vertentes. Juntamente com mais 900 polacos forma uma comunidade que sente uma grande atracção pela nossa cultura, o que não deixa de ser impressionante.
















Com tantos pedidos para desenhar um tubarão,
acabei por recorrer à capa de "O tubarão na banheira"






























O workshop correu maravilhosamente bem. Atendendo ao tema do evento, decidi usar o meu livro "Sabes que também podes ralhar com os teus pais?", cujos originais mostrei antes, para lhes lançar o desafio de desenharem algo que não gostassem que o pais fizessem, mas sempre de um ponto de vista construtivo (que é aliás aquilo que se passa com o livro). Confesso que fiquei em parte surpreendido com a beleza dos resultados finais, e digo em parte porque muitos dos miúdos frequentam cursos no atelier. O workshop era para ter a duração de 1:30 h, mas acabou por ter quase 3 horas, tal foi a dedicação dos
 miúdos. 







Uma sereia, a pedido de um menino que adora sereias.
Quem não gosta?







A palestra de Sylviane Rigolet: "Tabus, preconceitos ou temas difíceis: assuntos sempre delicados... mas para quem?"

Após o meu workshop, foi a vez de a Sylviane Rigolet apresentar a sua palestra. A Sylviane é uma psicolinguista de nacionalidade Suiça, licenciada em psicopatologia da comunicação e da linguagem e logopedia pela Faculdade de Psicologia da Universidade de Genève, mas acima de tudo, é um ser humano formidável. Ela é a mãe dos Encontros Nacionais de Ilustradores, que têm lugar há cerca de 4 anos em São João da Madeira, e esta viagem foi uma oportunidade de ouro para conhecermos a fundo alguém que já admirávamos antes. A Sylviane é apaixonada por Portugal, e não se cansa nunca de desmistificar as ideias pré-concebidas que todos temos quando comparamos a nossa cultura com a helvética.
O seu workshop foi brilhante, e devo dizer que de certo modo foi uma epifania para mim. Mostrou os muitos exemplos de livros que foram publicados em Portugal e que tratam de temas tabu. Mas, acima de tudo, demostrou até onde se pode trabalhar um livro, e o quanto pode ser fundamental na apropriação e apreensão do mundo por parte das crianças.  Eu já sabia que um livro é um mundo... agora fique a sabe que nele cabe um universo inteiro.
Tudo isto apresentado de uma forma original, apaixonada, teatral, poética e com uma coerência simples e inabalável.



Não é todos os dias que podemos levar umas cuecas para
uma palestra.




Um estendal feito de imagens de livros publicados em Portugal.

Mas que grande surpresa!!! Olha o Cuquedo.



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