domingo, 24 de fevereiro de 2013

Make Lego, not war!





Desde o início do ano que estou em casa, de baixa, devido ao susto que a minha vida decidiu pregar-me. Sempre vivi a 100 à hora, por vezes até à velocidade da luz, que é a velocidade do pensamento. E eu penso muito, demais até.

"Na minha cabeça cabem muitas coisas!", disse o meu filho João do alto dos seus poucos centímetros de altura, quando tinha mais ou menos 3 anos. Coitado, sai ao pai... nem sabe onde se meteu. 

E é exactamente esta minha tendência para as tempestades eléctricas cerebrais que têm tornado este período de convalescença tão difícil de ultrapassar. Estava habituado a viver no 80, agora passei para o 8. Devia aprender a viver no 44... o meio termo que aumenta as possibilidades de virmos a conhecer o 8 deitado -  - mais tarde. Mas não sou assim... sempre saltitei entre o preto e o branco, entre a luz e a escuridão, entre o cima e o baixo tão apaixonadamente como me foi possível, e isso é bom por vezes, outras uma maldição. Agora vivo no cinzento. Há dois meses. Vivo na ironia de nunca ter tido tanto tempo livre como tenho e de nunca conseguir conseguir fazer tão pouco como agora faço. Estou a ilustrar um livro, com a velocidade que a actual aridez criativa me permite. Tenho-me dedicado à culinária, actividade que sinto jamais fará parte do meu curriculum, no capítulo das actividades que domino. Sou mais um seguidor de receitas, que depois as adultera q.b. Tenho mais tempo para estar com os miúdos, tarefa que me dá um enorme prazer mas cujas constantes batalhas campais testosterónicas nem sempre me permitem a paz de espírito monástica que os médicos me condenaram quando tive alta do hospital. E depois há o frigorífico e a televisão. Houve mesmo um dia que dei por mim a assistir a um programa de manhã, daqueles que segundo consta têm como público alvo os idosos... "10 maneiras de usar o aparelho de frisar cabelo" era o nome da rubrica. E eu que tenho um crânio mais liso que uma bola de bilhar.

Céus!

E depois? depois há a minha cabeça que não pára de pensar. De criar cenários. De querer voar. De querer viajar mesmo sem sair o lugar. E o medo de que nada volte a ser como dantes.
E depois há o corpo que pede para correr, mas não pode. Pede para deslizar, mas não pode. Pede para saltar, mas está proibido. Durante este período, descobri da pior forma que sou viciado em drogas... endorfinas para ser mais exacto. As tais que nascem do exercício físico, que dão uma enorme sensação de bem-estar e que ainda por cima são grátis. E agora, parado, imóvel, vejo-me privado das minhas doses semanais. Até hoje, não imaginava que os sintomas de privação pudessem ser tão intensos, e ter tantas consequências, especialmente ao nível emocional.

A minha família e os amigos preocupam-se comigo. Não gostam de me ver assim, triste, cabisbaixo, pardacento. E eu faço de tudo para me manter na luz, afastado da sombra que um eclipse de mim mesmo pode produzir.

Mas por vezes é tão difícil.

Talvez por isso a Natalina e os meu filhos tenham decidido ajudar-me a cumprir um sonho antigo. Sempre quis ter uma volkswagen pão-de-forma. Podia ser de qualquer cor... azul-cueca, amarela ou beje. Com cortinas com flores havaianas, cama e cozinha incluídas. Há uns anos atrás, quando necessitámos de trocar de carro, chegámos mesmo a ponderar adquirir esta viatura icónica. Viatura não, estilo de vida. Mas a razão sobrepôs-se à emoção, e optámos pelo conforto moderno. Ainda hoje não sei se foi uma boa opção.
Pois bem... agora tenho uma. Linda. Vermelha e branca. Daquelas que até os vidros da frente rebatem. E não gasta nada. Só tem um senão... é do exacto tamanho de um pão-de-forma. Tem 1332 peças, e demorou alguns dias a construir. Mas deu-me um gozo do caraças, a mim e aos meus filhos porque estas coisas sabem melhor quando partilhadas. E a minha cabeça pôde finalmente descansar um pouco.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Uma chuva de cor

Algumas fotografias dos dois eventos que criámos especialmente para o 5º Encontro Nacional de Ilustração (Gentilmente cedidas por Patrice Almeida) que aconteceu no passado mês de Outubro em São João da Madeira.
Para este eventos juntei-me uma vez mais um grupo de amigos tresloucados, inconformistas, inconformados, musicais, poéticos, sonhadores, e acima de tudo com um coração do tamanho do universo. Falo do Marc Parchow, uma criança-gigante e companheiro de ondas e de sal. Falo do Ricardo, luminoso, boa onda e com um humor refinado. Falo Paulo Braga, um grande amigo careca com cara de asceta tibetano que é também uma das pessoas mais criativas que conheço. Falo do António Ribeiro, nas sua veias pulsa o Blues. Falo de grande João Mascarenhas, o talentoso menino Triste da BD, com alma de punk e que de triste não tem nada. E last but not least, Fernando Queirós, mestre da percussão e dos barulhinhos bons.










  









Para explicar o primeiro evento, que aconteceu no dia 19 no auditório dos Paços da Cultura, nada melhor do que lerem o texto que foi na altura escrevi para apresentar os nossos objectivos à organização do evento:

O lápis é uma ferramenta verdadeiramente democrática, e genial na sua imensa simplicidade.Tem um design simples, elegante e prático, que resultou tão bem que daqui a 200 anos, algures no porta-luvas de uma nave espacial a viajar à velocidade da luz com toda a certeza encontraremos um. Pode até ser muito pequeno, roído na sua extremidade superior e usado com a parcimónia e dedicação que reservamos aqueles objectos de culto que sobrevivem a tudo e a todos. Poderá ser um objecto de culto, vintage, ou até um amuleto, mas ainda será sempre um... Lápis.
Mas a verdadeira magia de um lápis reside no facto de ter o poder de nos lembrar, todos os dias, que desenhar, deixar uma marca num qualquer suporte para a posterioridade, é uma das actividades mais antigas do mundo - juntamente com a música - e que por isso mesmo está inscrita na nossa memória colectiva. No nosso ADN. Porque este é um evento dedicado a essa pequena varinha mágica feita de madeira e grafite, consideramos que também é, em última análise, uma homenagem ao Desenho, enquanto um dos meios de expressão por excelência, da nossa espécie. E sendo um meio de expressão verdadeiramente democrático, partilhado por todas as raças, culturas, credos e idades, decidimos que este ano o evento multimédia que pretendemos realizar em São João da Madeira deverá reflectir a filosofia do encontro. A música manterá a seu carácter omnipresente, servindo uma vez mais de pano de fundo para a expressão gráfica. No entanto, e ao contrário dos anos anteriores, aquilo que propomos é que todos os participantes deste evento participem verdadeiramente. Activamente. Desenhando aquilo que lhes vier na alma enquanto se deixam embalar pelas ondas sonoras que emanarão do palco. Para tal, todos terão uma pequena placa de MDF com aproximadamente 20 cm - previamente pintada por nós com uma camada de tinta branca - e um lápis, num conjunto gloriosamente simples, e que estará
disponível em todas as cadeiras do auditório. Queremos que as pessoas sejam apanhadas de surpresa, para evitar deste modo a prévia angústia de quem sente inseguro no desenho, mas acima detudo para despertar o Artista Plástico, o Ilustrador que está adormecido dentro de nós, sem preocupações estéticas, sem medo de falhar, sem necessidade de provar algo a alguém e sem o preconceito do belo. E tudo isto durante 45 minutos. No final, pretende-se que estas pequenas placas formem um mosaico para exposição.



Quanto ao 2º espectáculo, decorreu no dia seguinte no átrio do Shopping 8ª Avenida. Eu e o João Mascarenhas produzimos uma ilustração ao vivo, ao som da banda que desta vez voou por territórios mais Rock e Blues.
Muitos foram os que me perguntaram como é que fiz o efeito da chuva de cor. Nada mais "simples". algumas (muitas) dezenas de pequenos canudos de plástico (daqueles que se usam em electricidade), cheios com tintas de muitas cores, e devidamente fechados nas extremidades com fita-cola. Depois foi só colá-los a uma ripa de madeira. Mais tarde, seriam furados de um doa lados, colocado no topo da tela, e perfurados uma vez mais na extremidade contrária, para ver a magia acontecer. Na verdade, não correu exactamente como eu desejava, por isso estou em pulgas por voltar uma vez mais a este método, até atingir exactamente a tempestade de cor perfeita.






























quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

2013 - Ano Internacional da Cooperação pela Água

"2013 - Ano Internacional da Cooperação pela Água"
por Paulo Galindro
Ilustração digital em iPad
Fevereiro de 2013



Uma ilustração para a capa do destacável "Rebentos" que integra a publicação bimestral "Folha Viva", uma revista de ambiente do Centro de Educação Ambiental da Mata Nacional da Machada e Sapal do Rio de Coina, produzida pela Divisão de Sustentabilidade Ambiental da Câmara Municipal do Barreiro.
Esta ilustração foi inteiramente feita em iPad. Faz parte de uma série de experiências que culminará num livro que já estou a ilustrar, inteiramente executado nesta plataforma. Gosto de experimentar novos materiais, sejam eles quais forem. Desde que deixem uma marca mais ou menos indelével num suporte qualquer, e lá estou eu a experimentá-lo. Desta vez decidi abdicar do prazer de sujar as mãos, e experimentar a ilustração digital, e devo confessar que estou a apreciar imenso. Como tudo na vida tem prós e os contras... e como tudo na vida, há que saber exacerbar os primeiros e neutralizar os segundos.


segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

E os vencedores são______(barulho de tambores a rufar)...




Prometido é devido... aqui estão os vencedores do concurso que aqui lancei. Quanto aos vencedores, peço desde que já me enviem por mail a vossa morada, para que possa enviar-vos os presentes.

Obrigado a todos pela participação, e obrigado pela paciência que irão ter ao verem este vídeo... não foi fácil realizá-lo.


quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

A locomotiva a todo o vapor




Com tudo o que se passou na minha vida desde a passagem de ano, esta notícia passou-me completamente ao lado. O livro "A Locomotiva", ilustrado por mim sobre um poema do escritor polaco Julian Tuwin, editado pela Qual Albatroz, foi escolhido pelos membros do júri da 5º edição dos Prémios de Edição da Revista Ler / Booktailors 2012, para integrar os finalistas nas categorias Melhor Ilustração Original e Design de Obra Infanto-Juvenil.

Caso estejam interessados em votar em qualquer uma das obras passaram a esta fase final, poderão fazê-lo até ao dia 31 de janeiro no blogue http://premiosdeedicao.blogs.sapo.pt.


segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O poder de uma história






"Então o homem de idade disse: - Eu tenho uma história que vai fazê-lo acreditar em Deus (...)
- Isso é uma tarefa difícil.
- Não tão difícil que não consiga lá chegar."

Yann Martel "A Vida de Pi"



Já ando a ler este livro, e devo dizer desde já que estou a adorar. No entanto, há uns dias atrás fui ver o filme com o meu filho João, realizado por Ang Lee. Na verdade, nunca gostei de sobrepor o visionamento de um filme ao livro que lhe deu origem. Ler um livro é deixar que a imaginação crie o mundo que vive nas suas páginas, e que dê vida a todas as histórias que acontecem nas entrelinhas (essa é também a função de um ilustrador). Ver o filme primeiro é sobrepor a visão de alguém à nossa própria visão, e isso é de certa forma matar um pouco a experiência mística de mergulhar num livro, mas desta vez subverti as regras do (meu) jogo.
Sei que a crítica "especializada"  não foi muito favorável ao filme (as aspas não são acidentais, nem pretendem ironizar de uma forma depreciativa o trabalho destes profissionais... carregam sim a necessidade de termos também nós uma postura crítica perante o que nos rodeia, e que se sobrepõe sempre à opinião de terceiros que por vezes, não são tão especialistas com seria de esperar) e em determinados pontos, concordo plenamente com a opinião deles. Mas ainda assim foi uma experiência impressionante e visualmente inspiradora e absorvente. Mas acima de tudo, fala-nos do poder de contar uma história e do quanto reconstruímos o mundo e a nossa própria existência cada vez que o fazemos. Como deuses.

Por vezes pergunto-me se nós mesmos não seremos meras personagens de livros algures numa biblioteca sem fim, onde as histórias se encandeiam, entrelaçam e se repetem - como um mandala formando padrões fractais que escondem o segredo do universo - até que cada um dos seus personagens atinja o Prólogo da sua existência... o momento em que conhecerá o Autor. E quem sabe se o Autor não será também ele um personagem de um livro ainda maior.



"A ficção é isso, não é verdade, a transformação selectiva da realidade? Torcê-la para lhe extrair a essência?"


Yann Martel "A Vida de Pi"

domingo, 20 de janeiro de 2013

Dicionário de Ilustradores Iberoamericanos




Já está disponível online o Diccionário de Ilustradores Iberoamericanos, uma publicação da Fundación SM, e que será apresentado durante o congresso CILELIJ 2013 - Congresso Iberoamericano de Lingua e Literatura Infantil e Juvenil, que irá acontecer em Bogotá, na Colômbia.

Portugal, com não poderia deixar de ser, anda por lá.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Um presente um tudo nada atrasado


"O Natal acontece onde e quando se desejar"
por Paulo Galindro
Técnica mista sobre painel de MDF de 44x61cm
Dezembro de 2012





Pois... está de facto atrasado. Como aqui escrevi nos últimos tempos, a saúde pregou-me uma daquelas partidas inesquecíveis que me impediu de cumprir com este objectivo em tempo útil.

Assim sendo, emtre todos aqueles que seguem ou vierem seguir este blogue (esta é uma condição incontornável), e que aqui deixem um comentário até às 23:59 do dia 22 de Janeiro, irei sortear a ilustração que acima apresento (1º lugar), assim como 3 livros "Histórias às cores", ilustrado por mim sobre 8 textos de António Mota, editado pela Gailivro.

Quanto aos comentários que irão fazer neste blogue (e só podem fazer um) podem ser sobre qualquer coisa, ou até sobre nada em especial. O teor dos mesmos não será avaliado. Mas para tornar esta semana um pouco mais colorida, faço-vos a seguinte pergunta:


Qual a vossa cor preferida, e porquê?

PS: Ana Paula Oliveira e Dalila Romão, eu não me esqueci de vocês, nem do Concurso de Escrita Hipercriativa. Nem por um minuto. Estou a tratar das vossas ilustrações.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Obrigado!!!!!




Tinha de fazer isto. Tem alguns problemas meio estranhos de sincronização entre a minha voz e a imagem que não consegui resolver... quase que podia ser o trailer de uma telenovela venezuelana. Mas que se lixe, o conteúdo vale mais do que a forma.

domingo, 6 de janeiro de 2013

"De tanto bater, o meu coração [quase] parou"

 

São 10:36 h do dia 6 de Janeiro de 2013. Domingo. Estou sentado num dos cadeirões do meu quarto, algures no Hospital de Santa Cruz. Da minha janela vejo a mancha verde de Monsanto, um pouco de mar, a margem sul, o Cristo-Rei e a Ponte 25 de Abril, e tudo o mais que a memória fotográfica me deixa alcançar.
Neste momento preciso muito de escrever, quase como o ar que respiro. Quando se escreve com as emoções à flor da pele, tatuamos a fina pele da nossa realidade exterior com tudo aquilo que nos vai cá dentro. Este sou eu. Isto é o que sinto neste exacto momento.
Pensei durante algum tempo no título que iria oferecer a este texto. Aos poucos o belíssimo título de um filme francês, do realizador Jacques Audiard, passou pelos interstícios da minha memória, e subtilmente, instalou-se para ficar... "De tanto bater, o meu coração parou".

Quase.

O dia 3 de Janeiro foi um dia como qualquer outro. Normal. Cruelmente normal.
A normalidade é um sentimento anestesiante. Faz-nos acreditar com uma fé inabalável que tudo estará sempre no sítio previsto, na hora esperada. Na rotina dos dias, sentimo-nos deuses eternos de uma realidade que só nos nossos desejos é inalterável e imutável. Embriagados pela nossa cegueira à impermanência, motivados pela nossa ocidental aversão à mudança, vamos ignorando que tudo, absolutamente tudo à nossa volta está a mudar. A Vida é isso mesmo... Mutabilidade no seu estado mais puro e alquímico. para onde que que nos viremos, o que observamos num preciso instante é totalmente diferente do que observamos no instante seguinte. E neste vórtice mutacional em que vivemos o nosso corpo não se escapa. Transforma-se a cada segundo, desde o exacto momento em que nos úteros maternos a nossa metade masculina se funde com metade feminina, num processo que não termina com a nossa morte. E que dizer das nossas ideias, da nossa personalidade. Desenganem-se por isso todos aqueles que proclamam bem alto a firmeza das suas convicções e ideias. Nada mais errado. E ainda assim que assim o é.

Foi neste estado de natural embriaguez da tão desejada normalidade que lentamente decorreu o meu dia. Uma embriaguez que seria violentamente curada ao fim da tarde, com os primeiros sinais de uma dor no peito. Primeiro de uma forma subtil, depressa se agigantou. Cravou-se simetricamente nas costas. Trepou-me a garganta. Derramou-se num frio glaciar pelos meus braços. Mergulhou as minhas mãos num formigueiro aflitivo. À minha volta tudo rodava e se desfocava.
Estes sinais não me foram estranhos. De alguma já os tinha sentido no dia anterior. Na altura coloquei-os na gaveta dos danos colaterais de uma gastroenterite viral que me estragou o final do ano. Mas naquele momento, estes sinais eram estranha e assustadoramente diferentes. Aconselhado por uma grande amiga decidi ir ao hospital. O que não poderia saber é que essa decisão iria marcar o topo da primeira grande ascensão que todas as montanhas-russas têm.

Urgências. Dados pessoais. Pressão no peito. Triagem. Tensão arterial muito alta. Frio intenso. Ritmo cardíaco desvairado. Máxima prioridade. Electrocardiograma. Exames específicos aos sangue. Espera. Diagnóstico...


Forte probabilidade de um ataque cardíaco iminente. Enfarte do miocárdio.

 


Não acredito.

 


Isto NÃO me pode estar a acontecer!

 


A lenta subida da minha montanha russa terminou. À minha frente uma descida imensa, loopings, curvas apertadas, sobe e desce, forças centrífugas, forças centrípetas, forças G.

Em poucos minutos fui internado. Ligaram-me a sensores, máquinas, a um sem número de tubos e painéis com constelações de luzinhas que monitorizam a minha força vital. Fui mil vezes picado e mil vezes medicado. Não tenham ilusões... Nada nos prepara para esta fragilidade até ao momento em que percebemos o quanto somos frágeis.

Perante a sombra de um ponto-final-parágrafo na minha vida, durante as 24 horas seguintes fui sujeito a um terramoto de emoções, sobre o qual os pilares da minha vida tremeram, fissuraram e estilhaçaram-se em um milhão de fragmentos. Deste amontoado de entulho, surgem aqui e ali alguns pedaços maiores da minha vida. Apenas alguns, os verdadeiramente importantes.

Medo? Não. Uma infinita tristeza. Pelos meus filhos... O que vai ser dos meus filhos? Sou tão novo. Tanta coisa por fazer, por sentir, por dizer.

Lá fora, a Natalina - que é uma verdadeira guerreira - lutava duramente para não deixar o nosso mundo desmoronar-se, especialmente pelos pequenos grandes seres que tanto dependem de nós.
Face ao resultado dos exames e às dúvidas daí decorrentes, o passo seguinte foi óbvio. A urgência de um cateterismo. Numa sala equipada para o meu pior, um tubo invade-me as artérias e procura avidamente o meu coração, para aí depositar uma "tinta" especial, visível aos olhos de uma máquina. Esta tinta irá pôr a descoberto a verdadeira natureza das sombras que me toldam o horizonte.

No ecrã, o meu coração é estrela de cinema. Enorme, em alta definição. Sinto-me adormecer sob o efeito de medicamentos, quando oiço lá longe a voz do médico "Paulo, o pior cenário não se confirma... O que tem é uma miocardite. Não é uma boa notícia, mas face à alternativa, é uma maravilhosa notícia"

Uma inflamação no coração? O que tenho é uma simples inflamação no coração? Senti-me renascer, ser repentinamente inflado com uma energia infinita e desconhecida. E acima de tudo... Em paz.
Pude finalmente terminar um jejum de sólidos e líquidos de 24 horas de uma forma gloriosa. Nem num restaurante de 3 estrelas Michelin irei ter o prazer de comer algo tão intenso quanto aquela humilde sandes de queijo e fiambre que a Natalina me comprou.
O dia de sábado foi passado em estado de graça. Passei uma manhã inteira com os meus pés assentes no vidro morno da janela do meu quarto, aquecido pelo sol mais dourado que alguma vez vi. É incrível o pouco de que precisamos para sermos felizes, e do muito que arrastamos atrás de nós com um fantasma de Dickens.

Neste momento estou internado. Não sei o que irá acontecer nem a que tratamentos e exames irei ser sujeito. Não sei se será de origem viral ou bacteriana. E também não sei quando terei alta. Mas sinto-me tão leve.
Sei que este estado zen não é permanente. Com o passar do tempo, tudo se atenuará. Sinto contudo que subi um patamar na minha existência. Não é este onde me encontro, mas é com toda a certeza acima daquele em que me encontrava.

E nunca esquecerei esta experiência. Não quero. Ponto final. Este sentimento gravado em mim será o meu casulo quando as coisas correrem mal. O sentimento de ter nascido outra vez.

 

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Os meus primeiros passos no planeta 2013




O meu ano começou de uma forma épica... uma gastrenterite viral que me virou do avesso, levou às urgências do hospital e transformou o matraquear frenético dos fogo-de-artifício da meia-noite em meras bombinhas de carnaval cujo crepitar mal passou a espessura do meu edredon de penas. Nota positiva para o soro que me injectaram - Reserva de 2012 - com delicadas notas de açucar e sal, e que garantiu uma noite bem regada, e mais importante de tudo, devidamente hidratada.

Começou também com uma muito boa notícia - O livro "O Gato Gatuno e o extraterrestre trombudo" foi recenseado pelo «Rol de Livros» da Fundação Calouste Gulbenkian, tendo-lhe sido atribuídas 4 estrelas (podem ler o texto aqui) - e acima de tudo, com uma crítica que considero importantíssima ao meu trabalho, e em última análise, ao trabalho de qualquer ilustrador. Por isso mesmo, e porque prezo a democracia no meu blogue, transcrevo-a na íntegra:

"As ilustrações têm a qualidade reconhecida a Paulo Galindro, ilustrador já premiado: As guardas com os esboços elaborados ao longo do processo criativo, a citação final do filme de Spielberg, a inclusão de fotos com o processo de realização das ilustrações, tornam este livro muito rico, no que respeita ao plano imagético. No entanto, o facto de as ilustrações desvendarem logo em primeiro plano aquilo que a escrita se esforça por tornar ambíguo até à última página (que o extraterrestre é, de facto, um aspirador: «É que, nos pensamentos de um gato, aspirador é palavra que não existe. Isso é coisa dos humanos») provoca um efetivo desacordo na relação cúmplice entre texto e imagem que se deve estabelecer num livro ilustrado. Se o poder da escrita está na capacidade de ocultação de informação e nas ambiguidades aí geradas, a imagem deve necessariamente acompanhar a estrutura narrativa proposta pelo texto."


De facto, procurei criar uma personagem que estivesse a meio caminho entre um R2D2 da minha muito querida série de culto "Guerra das Estrelas", um monstro alienígena e um aspirador, no sentido mais clássico e vintage do electrodoméstico. Olho para trás e vejo agora que poderia ter levado essa ambiguidade um pouco mais longe, desequilibrando-a na direcção das estrelas em detrimento do ambiente mais caseiro.
Gosto de aprender. Todos os dias. Hoje aprendi. Foi por isso um bom dia.


"Ever tried. Ever failed. No matter. Try Again. Fail again. Fail better."

Samuel Beckett

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

2013




2012 foi uma viagem e tanto. Teve momentos maravilhosos, e outros nem tanto. Mas no fim, o que fica é o que nos fez voar.
Quero manifestar aqui a minha total admiração por todos vocês que estão aí desse lado. São vocês que dão cor a tudo o que faço.

Um imenso agradecimento pela vossa magia, e que tenham um muito bom ano de 2013.


quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

A Luz que me tatua os olhos



"Let love in"
por Paulo Galindro
Oeiras, 27 de Dezembro de 2012 pelas 7.45

"Because a heart that hurts
is a heart that works"

Placebo "Bright Lights"

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Boas Festas

"O Natal acontece onde e quando se desejar"
por Paulo Galindro
Técnica mista sobre painel de MDF de 44x61cm
Dezembro de 2012
Uma ilustração para a capa do destacável "Rebentos" que integra a publicação bimestral "Folha Viva", uma revista de ambiente do Centro de Educação Ambiental da Mata Nacional da Machada e Sapal do Rio de Coina, produzida pela Divisão de Sustentabilidade Ambiental da Câmara Municipal do Barreiro.
Quanto ao tema, nem vai ser preciso descrevê-lo.
Uma nota final para os bicharocos que aqui aparecem... eram para ser suricatas. Juro pela eternidade da minha alma que sim. Mas das minhas mãos saíram estas criaturas apenas levemente parecidas com esses animais adoráveis. Ficam as boas intenções. Sei que o inferno está cheio delas, mas ainda assim continuam a ser importantes.

Ah... e já agora,



Boas Festas!!!

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A Luz que me tatua os olhos

"Luz-me"
Cais das colunas, 18 de Dezembro de 2012
pelas 8:30 da manhã



"Can you see the light as far as the eyes can see?
From this point above the world
Where mortals dare their destiny
As it radiates, may I witness open-eyed

Let me remain where there is light"


VNV Nation "Where there is light"


quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

104 x Manoel de Oliveira

"Uma homenagem a Manoel de Oliveira"
por Paulo Galindro
técnica mista sobre MDF
Novembro de 2012 





“Aniki Bebé, Aniki Bobó
Passarinho Totó
Birimbau, cavaquinho
Salmonão, Sacristão

Eu sou polícia, tu és ladrão
Eu não quero ser ladrão
Tenho medo à prisão
Aniki Bebé Aniki Bobó”



Há umas semanas atrás, a marca Princess Pea, com quem já colaboro desde o seu início, desafiou-me a conceber uma ilustração de homenagem ao cinema português, e muito especialmente ao seu mestre - embaixador, Manoel de Oliveira. E nada melhor do que mostrá-la aqui no dia em que ele celebra a magnífica idade de 104 anos.
Esta ilustração bebeu inspiração no filme Aniki Bóbó - que eu já vi um sem número de vezes e que é das coisas mais doces e inocentes que já me passaram pelos olhos - muito especialmente no personagem Pompeu (interpretado pelo actor Feliciano david), que tem uma imagem adorável. É pois um cruzamento entre os sonhos do menino Manoel de Oliveira e dos personagens que criou, porque no fundo, é exactamente isso que se passa... criador e criação culminam num mesmo vértice da pirâmide criativa.

Esta ilustração tem um segredo, um enorme segredo, que eu só revelarei daqui a uns dias.

Até lá, sigam sempre pelo bom caminho!


Parabéns Manoel de Oliveira
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