terça-feira, 23 de junho de 2015

Um novo livro ilustrado pela Natalina





















Chama-se "O País da Roupa". A história é da autoria de Maria de Lourdes Soares e foi editado pela Editora Paulinas.

E o que posso dizer sobre este livro?

Bom... posso dizer que as ilustrações foram totalmente, e quando digo totalmente... é mesmo



TOTALMENTE 


executadas com a técnica de corte e costura. É isso mesmo... uma salada russa portuguesa feita com linhas, pespontos, alinhavos, agulha, dedal, máquina Singer, ponto cruz, panos, botões, fechos, colchetes e alfinetes. De facto, depois deste livro a Natalina já não é ilustradora... é alfaiate.

O resultado ficou um espectáculo de se ver e de se tocar.




domingo, 14 de junho de 2015

Um luto de 1000 cores

"Poema de 1000 cores para que uma amiga se cure depressa"
Por Paulo Galindro
Técnica mista sobre MDF
Março de 2010



A Manuela no atelier da nossa querida amiga Mariola Ladowska,
num momento de felicidade plena, há umas semanas atrás

Mesmo quando tudo já parecia perdido,
encontrou - nem imagino onde - força anímica para começar uma nova tela



A morte é a curva da estrada,
Morrer é só não ser visto.
Se escuto, eu te oiço a passada
Existir como eu existo.

A terra é feita de céu.
A mentira não tem ninho.
Nunca ninguém se perdeu.
Tudo é verdade e caminho.

Fernando Pessoa



Este vai ser um post doloroso, daqueles que dói bem fundo escrever. Mas ao fazê-lo, quero de alguma forma operar dentro de mim o processo alquímico de transformar o chumbo da dor da ausência no ouro da aceitação de que o ciclo da vida é mesmo assim, e que tudo acontece como deve acontecer. E que quando tudo acontece como deve acontecer, está tudo bem, e isso é bom.


Quero falar-vos de uma grande, grande amiga. Na verdade não é a primeira vez que o faço... já noutra altura o fiz, preservando no entanto o seu anonimato sob a forma de um glorioso M maiúsculo, porque a ética e a intuição assim mo ditaram no momento.

Mas hoje... hoje quero falar-vos alto e a bom som da MANUELA. E não, as maiúsculas a as cores não são acidentais. Não encontro, de momento, outra forma mais efectiva e afectiva de falar de uma pessoa que me é maiúscula e superlativa, do que carregar na tecla Caps Lock sempre que a ela me referir.

A MANUELA gostava de arte. Não como mera observadora, que a MANUELA nunca foi de ficar de fora aquilo que gostava. Como em tudo na vida, a MANUELA mergulhou de cabeça na arte, e em todas as suas expressões... tudo serviu para pôr cá fora o arco-íris que vivia dentro dela.

A MANUELA adorava a música e os livros. E acima de tudo, vibrava com os silêncios entre as notas e os espaços entre as palavras. Porque é aí que se escondem tesouros inomináveis.

A MANUELA sabia amar como ninguém a família e os amigos, a quem nunca poupava palavras de conforto e de aconchego, mesmo quando, tantas vezes, cortinas de veludo vermelho ameaçavam encerrar o espectáculo da sua vida.

A MANUELA também amava assaralhopadamente (haverá outra forma de amar) os animais, especialmente aqueles que não se podem defender do mais cruel de todos eles. Se na sua casa viviam gatos e cães - muitas vezes tirados da rua - em sonora harmonia, no seu coração vivia uma Arca de Noé inteirinha, botes salva-vidas e âncora incluídos.

Inconscientemente, todos os que rodeavam a MANUELA (e eram muitos, que por ela se sentiam atraídos tal como uma borboleta se sente atraída por uma fonte de luz) intuíam de algum modo que estavam perante um Espírito antigo, sábio, portador de uma Luz e de um Conhecimento só acessível aqueles que por cá andam há muito, muito tempo. Gosto de pensar nela como um Boddisatva... aquele(a) que se recusa a Avançar enquanto ainda existir alguém que fique para trás.

A MANUELA foi uma guerreira que durante anos lutou contra um assassino silencioso que, alguém num dia pouco inspirado apelidou injustamente de Câncer... caranguejo em latim. Sempre senti que há algo de irónico em se usar tão maravilhosa manifestação de vida para se designar uma maldita doença que nos corrói a força vital. Mas enfim... quem sou eu para pôr em causa opções destas. Embarquemos então nessa metáfora. A MANUELA lutou corajosamente contra um monstro que fechou as tenazes em torno do seu corpo, com a firme intenção de nunca mais a largar. Contudo, durante essa luta feroz, implacável e desigual, a MANUELA jamais perdeu a força imparável do seu sorriso luminoso, o seu olhar sensível para a Beleza Interior dos outros e um sentido de humor perspicaz e afinado ao milímetro. Essas foram as suas derradeiras armas. As armas com que ganhou muitas batalhas. Sabem... vezes sem conta, tive o privilégio de a ver a desferir uns valentes xutos e pontapés nesse monstro invisível. Por vezes pela força das suas palavras, muitas vezes pela força dos seus gestos corajosos e desconcertantes.

"Não te preocupes amigo, que ainda não carimbei o passaporte! Se a morte pensa que me vai levar sem ter muito trabalho, está muito enganada!"

... uma das frases que dela mais ouvi nos últimos dias, quando lhe perguntava como se estava a sentir, entre emplastros de morfina e muitos outros medicamentos que nos subtraem da dor, mas também do sentir da vida.

Na passada quinta-feira, 11 de Junho, durante a noite, e após uma semana sem fim de infindável sofrimento, a MANUELA finalmente "carimbou o seu passaporte" para a Grande Viagem. Não sem antes todos aqueles que a amavam se despedirem condignamente. Serenamente. Como deveria ser sempre.

São assim as pessoas-farol. Inesquecíveis.

Não te digo adeus, Amiga, porque sei que agora, mais do que nunca, estás em todo o lado. E se estás em todo o lado, estás junto a nós.

Como disse Carl Sagan no seu belo "Cosmos", diante da vastidão do espaço e da imensidade do tempo, foi uma alegria para mim ter partilhado um planeta e uma época contigo.




Obrigado.








segunda-feira, 1 de junho de 2015

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"A persistência da memória"
De Salvador Dali




"A vida é aquilo que acontece enquanto fazemos planos para o futuro."
John Lennon


Tenho andando demasiadamente desaparecido aqui do blogue. São tantas as coisas que exigem a minha atenção, e o tempo - sempre o raio do tempo - esse parece estar a encolher. Juro a pés juntos que os meus relógios não têm as 24 horas que todos tinham quando eu os comprei. Há neles espaços vazios, momentos em que os ponteiros andam 2 vezes mais rápido. E o pior, é que já não estão na garantia.

Alguém me anda a surripiar minutos, segundos, tiques e taques.  A quem devo eu recorrer?

Ao Deus Cronos? Esse há muito que nos abandonou, tal é a falta de tempo que nos assola. O Deus do Tempo precisa de seguidores que tenham muito tempo disponível.  Não de baratas tontas que olham mil vezes para um relógio mas já nem as horas vêem. É que tudo serve de desculpa para desviar o olhar de uma realidade que aos poucos parece estar a dissolver-se, para caber nos pequenos visores dos nossos gadgets.

Mas prometo que aos poucos vou restabelecer as minhas visitas aqui à minha casa-mãe digital. Sim, este espaço virtual, conhecido por Blogue - que aos poucos parece estar a perder terreno para as redes sociais - é verdadeiramente o meu lar feito de 0's e 1's. Digamos que o Facebook é para mim o McDonalds, e o Voo do Pintarriscos um restaurante de 3 estrelas Michelin.

A minha ausência tem sido por uma boa causa... aliás, por várias, que terei todo o prazer em desvendar nos próximos tempos. Irão com toda a certeza compreender melhor.

Obrigado a todos vocês, resistentes que ainda me acompanham.


quinta-feira, 23 de abril de 2015

Dia Mundial das Asas

ETerna Biblioteca"
por Paulo Galindro
Técnica mista sobre painel de MDF com 0,48x0,68 cm
Outubro de 2012

Hoje celebra-se mundialmente o dia em que o homem aprendeu a viajar sem sair do lugar. Vida longa a esse montinho mágico de folhas coladas, cosidas e ensanduichadas entre dois cartões, que muitos gostam de chamar Livro, mas eu prefiro pensar que são...



...Asas.

sábado, 7 de março de 2015

14 e uma aguardente de São Domingos





Olho para as fotografias do João há 14 anos atrás, a olho para ele agora, com a natureza a despontar por todos os poros, e pergunto-me:

... mas...mas...mas alguém tirou a matrícula do camião que me atropelou e eu nem dei por isso? Perdi algo pelo caminho? A sério?!?!?! É que ainda sinto o cheiro a Mustela nas minhas mãos e o aroma a bébé na ponta do meu nariz, e já este gajo me anda a pôr creme para as borbulhas na cara, e qualquer dia até after-shave.
Chiiiiiiiiiçaaaaaa... qualquer dia vejo-me numa excursão do INATEL até a Serra da Estrela, a bater as palmas ao som de uma música pimba, e cheio de pica para o sorteio de uma perna de presunto ou de um conjunto de copos de cristal da Boémia.

Acho que vou até ali à tasca beber um copinho de aguardente São Domingos.



sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Goooooooooooooooolo

Recentemente, fui convidado a fazer ilustrações editoriais para a revista 360 da Federação Portuguesa de Futebol. As primeiras 5 ilustrações servem como cenário para 5 histórias rocambolescas que aconteceram a seleções portuguesas.

Recently, I was invited to make editorial illustrations for the 360 Magazine of the Portuguese Football Federation. The first 5 graphics serve as the setting for 5 surreal stories that happened to Portuguese selections.




Quando se joga num país tão perigoso como a Guatemala no ano de 2000, corremos o risco de confundirmos uma bola que passa de raspão numa das nossas orelhas com uma bala perdida. Foi exactamente o que aconteceu a um guarda-redes da Seleção Nacional de Futsal durante a fase final de um Campeonato do Mundo, quando se atirou em pânico para o chão convencido de que tinha sido gravemente atingido.

When we play in a country as dangerous as Guatemala in 2000, we run the risk of confusing a ball passing grazed one of our ears with a stray bullet. That's exactly what happened to a keeper of the National Futsal Team during the final phase of a World Cup when he threw in a panic to the ground convinced that he had been hit badly.




Imaginem por um instante que estão a treinar futebol de salão num pavilhão de uma universidade, quando entra um homem furioso que se agarra uma das balizas com a firme intenção de a levar com ele, por afirmar ser o legítimo proprietário. Foi precisamente o que aconteceu à Seleção Nacional de Futsal na Tailândia, durante os treinos para a fase final do Campeonato do Mundo de 2012.

Imagine for a moment that you are training indoor soccer in a pavilion at a university, when suddenly a furious man enters, and holds one of the beacons with the firm intention to take with him, by claiming to be the rightful owner. That is precisely what happened to the National Team Futsal in Thailand, during a training for the final phase of World Cup 2012.


Em outubro de 2004, a Seleção Nacional sub-19 participou, em Itália, província de Pisa, na primeira fase de qualificação para o Campeonato da Europa de 2005. O último jogo dessa primeira etapa foi disputado diante da Itália. Quem ganhasse nesse jogo iria encontrar, na fase decisiva de qualificação, as poderosas seleções da Espanha e da França. Os italianos não queriam ficar no primeiro lugar (o que só conseguiriam fazer se vencessem Portugal), mas também não queriam perder para não prejudicarem a sua pontuação no ranking da UEFA da categoria. Como consequência, este jogo acabou por se tornar um não-jogo. Toda a partida jogou-se apenas no meio campo italiano, onde até o guarda-redes português foi colocado.

In October 2004, The National Selection U-19 participated in Italy, province of Pisa, in the first qualifying round for the European Championship 2005. The last game of this first stage was played against Italy. Whoever won this game would find, in the decisive phase of qualification, the powerful teams of Spain and France. The Italians did not want to stay in the first place (which they could only if they won Portugal), but also did not want to lose to not harm their score in the ranking of the UEFA category. As a result, this game turned out to be a non-game as the Italians did not want to score or suffer a goal. All match has played only in the Italian midfield, where even the Portuguese goalkeeper was placed.



No Campeonato do Mundo Sub-20 de 1999, que decorreu na Nigéria, a nossa seleção ficou sediada na capital do Biafra, Enugu, uma cidade absolutamente inóspita, marcada por uma enorme pobreza e fome. Para o efeito, a FIFA reativou um decrépito hotel, sem as mínimas condições de habitabilidade… canalizações ferrugentas com água em tons de castanho, dificuldades de comunicação, escassez de alimentos e défice de higiene nas instalações eram apenas alguns dos problemas. A comitiva teve muitas vezes de apelar à criatividade para sobreviver às carências da situação… tomar banho com água engarrafada foi uma delas.

In the World Championship U-20 1999, held in Nigeria, our selection was based in the capital of Biafra, Enugu, an absolutely inhospitable city, marked by widespread poverty and hunger. For that purpose, FIFA reactivated a decrepit hotel, without the minimum living conditions ... rusty pipes with water in brown tones, communication difficulties, shortage of food and hygiene deficit in the facilities were just some of the problems. The delegation often had to appeal to creativity to survive the needs of the situation ... bathe with bottled water was one.


Em 2001, a Seleção Nacional sub-21 viajou para a antiga Jugoslávia, mais propriamente para Subotica (atual cidade sérvia). Apenas quando chegaram ao destino é que se aperceberam que a bagagem tinha ficado retida em Munique, onde fizeram escala. A bagagem - que entre outras coisas, transportava os equipamentos da seleção - só iria estar disponível daí a uns três dias, o que se revelou catastrófico pois o primeiro jogo seria daí a dois dias. Como as tentativas por parte da Federação Portuguesa de Futebol para adiar o primeiro jogo sairam fracassadas, a seleção teve de improvisar equipamentos com o que encontrou pela frente. A única coisa que escapou a este imprevisto foram as chuteiras, que foram transportadas nas malas de cabine.

In 2001, the National Selection U21 traveled to the former Yugoslavia, more specifically to Subotica (Serbia current city). Only when they reached the destination is that they realized that the luggage had been held in Munich, where they scale. The luggage - which among other things, carrying the selection of equipment - would only be available the to three days, which proved catastrophic because the first game would be two days later. As the attempts by the Portuguese Football Federation to delay the first game left failed, the selection had to improvise with the equipment that had to confront. The only thing that escaped to this unexpected situation were his boots, which were transported in the cabin bags.




A última das 6 ilustrações que me foram pedidas foi esta... A primeira de uma série de ilustrações mensais que irão mostrar as jogadas que estiveram na base do golo da vida de vários jogadores conhecidos. O desafio que me lançaram foi o de representar esses golos de uma forma original, que não seguisse a estética normalmente utilizada neste tipo de publicações de índole desportiva. O golo deste primeiro mês coube ao João Pinto, e ao seu famoso golo no Euro 2004 contra a Inglaterra.
Devo dizer que este não é projecto fácil, pois tenho de representar uma série de movimentos que ocorrem em segundos numa só imagem, o que me obrigou a uma série de horas passadas a desconstruir um golo num vídeo

The last illustration that were ordered to me was this ... The first of a serie of monthly illustrations that will show the moves which led to the goal of life of several well-known football players. The challenge was to represent these goals in an original way, which did not follow the aesthetics commonly used in this type of sports publications. The goal of this first month was the famous João Pinto's goal in the Euro 2004, against England.
I must say that this is not an easy project, because I have to represent a series of movements that occur in seconds in just one image, which forced me to a number of hours spent deconstructing a goal in a video.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

House of Love




A Árvore do Amor, da qual já tinha falado aqui (e do processo de execução, aqui), já foi plantada cá em casa. Mas por falta de espaço para crescer, transformou-se na Casa do Amor.

The Tree of Love, which i had already spoken here (and the making of, here) has been planted here at home. But due to lack of space to grow, it became the House of Love.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

"A Árvore do Amor" ou "Um Amor de Árvore"

















Árvore do Amor, árvore do Amor
Que as tuas Raízes se afundem nos nossos Corações 
E os teus Ramos se espalhem pelo Universo


Tree of Love, Tree of Love,
May your Roots sink deep into our Hearts,
And your Branches spread wide across the Universe

Como se fez a "Árvore do Amor"?

Há umas semanas atrás fomos desafiados pelo Hotel Intercontinental Lisboa para criar uma árvore de Natal original. Este convite foi endereçado a artistas de várias áreas criativas(Ana Calheiros e Menezes, Carla Matos, Conceição Vasco Costa, Fernanda Lamelas, Maria João Bahia, Tim Madeira, Sofia Albuquerque e Teresa Ribeiro). Confesso que a nossa primeira opção foi declinar amavelmente o convite - o cansaço, a confluência de uma série de diferentes projectos num mesmo espaço de tempo e a sensatez assim nos sussurraram - mas rapidamente mudámos de opinião, quando, após um brainstorming familiar, um momento de inspiração nos fez unir duas ideias distintas numa só peça única, surpreendente e especial: Por um lado, um candeeiro alto em forma de edifício - há muito ensaiado por mim em esboços (imagens 1 e 2), numa ilustração que entretanto embeleza as paredes da casa de uma grande amiga (imagem 3), numa casa-candeeiro, de dimensões muito menores, que ofereci a um grande amigo (imagem 4) e em muitas pequenas casas que a Natalina foi fazendo ao longo dos anos, também em papel maché. Por outro lado, uma árvore de Natal, o grande objectivo deste desafio.

A Técnica é apenas uma parte da equação da Arte e da Criatividade, mas é também a parte que mais facilmente se transmite de forma simples, clara e objectiva. As outras duas, tal como um músculo, precisam de ser exercitadas sob pena de atrofiarem. Assim sendo, este post que agora publico procura dar algumas indicações a quem queira encetar uma tarefa destas, e criar a sua própria arquitectura em papel maché, ou até outra coisa qualquer. Desde que exista um esqueleto que estruture a peça, tudo é possível fazer em papel maché. Existem algumas diferentes abordagens a esta técnica, mas a diferença maior reside no facto de desfazermos previamente os pedaços de papel em cola branca até formar uma pasta de papel, ou então utilizar directamente os pedaços de papel sobre a estrutura a cobrir, colando-os e ensopando-os com cola branca. No nosso caso, preferimos a segunda opção, por gostarmos mais da textura alcançada.
Gostaria ainda de referir que este post não pretende de forma alguma ser uma manancial de informação detalhada, mas sim uma simples e abrangente introdução à forma como pensámos este projecto desde o início. Espero que tenham paciência para o ler, e acima de tudo, que gostem do que leram e utilizem de alguma forma nas vossas criações. Então vamos lá a isto... respirem fundo:


Imagem 1

Imagem 2

Imagem 3

Imagem 4

Capítulo Um

Desenhar, desenhar, desenhar e no fim desenhar outra vez

O desenho é a forma mais simples, mais profunda e mais económica de ensaiarmos ideias, soluções e conceitos antes de pôr as mão à obra. Através do desenho conseguimos montar aos poucos uma imagem consistente e muito detalhada do que poderá ser o trabalho final. E o melhor de tudo, nem sequer é preciso dominar o desenho em termos técnicos. Para mim, mais do que o resultado final de um esboço ser mais ou menos atraente a um observador, o que me interessa é o acto mental que está por detrás desse gesto tão antigo como a nossa própria espécie (dizem que é a segunda actividade humana mais antiga... e provavelmente a segunda profissão mais antiga também). Muitos dos meus desenhos são difíceis de descodificar por alguém que não seja eu mesmo, mas para mim, escondem segredos que me iluminarão o caminho tortuoso e por vezes escuro como o breu, que é criar algo onde antes nada existia. Por isso, desenhem, desenhem muito mesmo. Desenhem nos transportes, desenhem enquanto falam ao telefone, desenhem no trono de loiça. Desenhem com as duas mãos, desenhem com tudo o que deixe um rasto numa superfície, desenhem na areia, desenham mentalmente ou no corpo de quem amam. Desenhem com o vosso corpo, Desenhem sem desenhar verdadeiramente. Façam tudo isto em qualquer superfície. Ou então num bloco de desenho. O VOSSO bloco de desenho, pessoal, intransmissível, único. O mais belo bloco de desenho do universo. E se sonharem com monstros, desenhem-nos tão ou mais horríveis do que são... depois pintem-lhes uma cuecas cor-de-rosa com flores vermelhas. Nunca mais vos assustarão de tão pequenos que ficam;
















Capítulo Dois

A Ideia... essa coisa misteriosa que parece ter origem divina (...)

(...) o que é uma grande treta. Para alguém exterior, parece que as nuvens cinzentas se abrem a um azul celestial... parece até que se ouvem trombetas angélicas, e uma mão divina nos toca a testa, enquanto estamos no banho ou sentados no trono de loiça. Nada mais errado, e uma ideia perigosa até, por muita gente acreditar nela. E quando acreditamos numa ideia destas, passam a haver dois tipos de pessoas... os criativos iluminados e os outros, não merecedores de tal benesse divina sabe-se lá porquê. Ao fim e ao cabo, se Fernando Pessoa afirmou que "Deus quer, o homem sonha, a obra nasce", porque razão haveremos, nós meros mortais, de não acreditar nessa realidade divina?
Pois bem... a ideia vem essencialmente de três variáveis... uma paciência inabalável, uma teimosia mais férrea do que a mula de Sancho Pança e por fim... muito trabalho, que pode ser ou não visível aos olhos dos outros. É nesta interioridade que reside muitas vezes a ilusão da inspiração como algo exterior a nós. Ela vem de facto, como que um relâmpago estrondoso que tudo ilumina, mas resulta de uma tempestade cerebral que por vezes nos pode tirar o sono e a paz de espírito durante longos períodos.
E falando de paciência, se tiverem paciência e forem teimosos, a pouco e pouco, verão como que por magia surgir nos vossos desenhos relampejos do que poderá ser o vosso caminho criativo na resolução de um determinado problema, e toda a história que lhe está subjacente... no fundo, o argumento que no final musculará as vossas decisões e as consubstanciará na criação pretendida. Porque tudo no universo tem uma história, uma causa... desde um grão de areia até uma galáxia distante. No nosso caso, chegámos à intenção de criar um edifício tão alto e estreito quanto possível, do qual sairiam uma série de ramos de árvore, criando deste modo uma peça desconcertante, nuclearizando em si mesmo duas realidades distintas. Prevendo-se uma altura não menor do que 2.50,  precisávamos de criar uma estrutura interior para estabilizar uma peça tão alta e estreita e, simultaneamente que funcionasse como estrutura de suporte dos ramos . E tal como nós, com as (provavelmente poucas) certezas que conseguiram alcançar na fase de desenho, podem começar a meter a mão na massa. E não se se preocupem, no processo que vem a seguir há muito espaço para decisões;

Capítulo Três

Um esqueleto com ossos de madeira

A estrutura central, em madeira, foi feita a partir de uma base quadrada com um mínimo de lado que não pusesse em perigo a estabilidade do conjunto e um barrote com 40x60 mm de secção e uma altura de 2 metros, fixo através de peças metálicas. Após várias tentativas e erros, cheguei a uma medida de base de aproximadamente 30 cm de lado, o que me garantiria mais tarde um edifício elegante, esguio. Mais tarde, esta estrutura será furada para inserção dos ramos, e também para colocação da iluminação, mas essa é uma outra história contada no capítulo dezasseis.








Capítulo Quatro

Uma pele de cartão cinzento

Para a construção do edifício, utilizámos cartão cinzento com 1.5 mm. Mais fino e ficaria demasiado frágil, mais espesso seria muito difícil de manusear e dobrar. Como queríamos um edifício elegante, que fosse afunilando em altura, e ainda que a sua imagem fosse bastante torta, deformada e tosca - como que transparecendo uma construção tão antiga e desgastada como a própria humanidade - com os cartões formámos três caixas sem qualquer rigor geométrico que não o imbatível olhómetro lusitano. Estas caixas foram sofrendo múltiplas deformações e erosões sempre tendo como ponto de referência o eixo central, em torno do qual tudo se desenvolve. Se a coisa ficar muito feia - e vai ficar - não se preocupem... é sinal que ficará lindo.

















Capítulo Cinco

Um chapéu de cartão canelado vindo directamente de uma torradeira

Para a cobertura, terão que usar a vossa imaginação, visionando a construção planificada e, com paciência e muita imperfeição (Este esforço para tornar as coisas imperfeitas, para um gajo como eu que estudou arquitectura, é mais complicado do que parece) ir construindo aquilo que conceberam em desenho. O que será melhor? Um telhado de uma água? Duas águas? Quatro águas? ou plano? No nosso caso, queríamos perseguir uma imagem algo TimBurtiana e gótica q.b., e com uma clara hierarquização da fachada principal face às restantes. Assim sendo, optámos por duas águas bastante inclinadas, que convergem num crescendo para a fachada principal, criando deste modo uma imagem mais dramática do conjunto;





Capítulo Seis

Uma chaminé e uma mansarda para tornar as coisas mais complicadas

O mesmo esforço de visualização de uma estrutura planificada foi feito para a construção da mansarda, que reforça o carácter um pouco gótico que perseguimos para a forma da casa, e também para a chaminé, que quisemos proeminente e completamente desalinhada de qualquer elemento.  Uma vez mais, não se preocupem com as imperfeições... é sinal que estão no bom caminho. Aqui não há lugar para arquitecturas minimalistas (Siza Vieira... desculpa-me, mas a tua cena aqui não ficaria lá muito bem... fica para a próxima);









Capítulo Sete

Antes de mim coisa alguma foi criada
Excepto coisas eternas, e eterna eu duro
Trazei toda a esperança, ó vós que entrais! (*)

Resolvidos os problemas à altura das nuvens, chegou o momento de nos virarmos para o chão. Com um x-acto, abrimos na fachada principal uma porta esguia, tosca, desconcertante. Marcámos a importância desta entrada com a construção de um telheiro de lados triangulares.

(*) Vai-te lixar, ó Dante Alighieri... tu e o teu inferno, que aqui só entra amor e esperança. Tive por isso de alterar a tua famosa frase à entrada do teu inferno, para algo mais agradável.














Capítulo Oito

Mais uma porta... porque neste edifício todos vão querer entrar, e rapidamente

Quisemos também abrir uma porta lateral mais alta, acessível por uma escada que é um verdadeiro atentado à segurança pública de tão torta e perigosa que é. Com esta escada, criámos uma base visualmente mais marcante e articulada, e mais "agarrada" ao chão. Paralelamente, tudo fica com um ar mais familiar, aconchegante, que põe a descoberto afectos entre a vizinhança deste edifício muito sui generis;










Capítulo Nove

Quando se abrem duas portas, abrem-se um milhão de janelas

Chegou a hora de abrir janelas e portas em todas as fachadas do edifício. Confesso que esta fase nos provocou algum receio, mas depressa se desvaneceu. Assim que sentimos o prazer de tornar permeável à luz aquilo que antes era opaco, o difícil foi parar. Quisemos evitar a todo o custo qualquer regra que não fosse a ausência de regras. Nem no tamanho dos vãos, nem na posição, nem em qualquer outra característica. Pura aleatoriedade, com excepção de algum cuidado na posição dos vãos alinhados com a estrutura central, pois seriam estes - em teoria, já que na prática não foi bem assim, e ainda bem - a receber mais tarde os ramos nas quatro fachadas;






Capítulo Dez

Haverá amor sem uma varanda? Desde Romeu e Julieta que a resposta é um redondo NÃO!

Para articular um pouco as fachadas, quisemos adicionar duas varandas de esquina. Criámos assim um certo drama e articulação na forma geral do edifício, estimulando os observadores a olharem em volta do edifício. Quem não gosta de um pequeno-almoço numa bela varanda?






Capítulo Onze

Pai! Vês? Fiz bem em ser ilustrador e não electricista como tu querias...
olha para mim cheio de papel!

Chegou a hora do papel maché. E se o processo em si é simples, a tarefa revelou-se extenuante, peganhenta, por vezes até irritante. Mas vermos aos poucos aquilo que antes mais não era do que uma tempestade cerebral e alguns rabiscos num Moleskine, é simplesmente maravilhoso. E foi a isso que nos agarrámos nos momentos em que já nos estávamos a passar com tanta cola nos dedos, no chão e em algumas partes do corpo que não apanham lá muito sol.

E quanto ao processo? Nada mais simples: Cola branca ligeiramente diluída, e muitas... muitas mesmo... tiras de papel, coladas na vertical e na horizontal (para uma maior resistência do conjunto), intencionalmente mal implantadas para uma imagem mais rica em termos de texturas, e totalmente ensopadas pela cola, o que resultará numa superfície brilhante e muito resistente ao tempo. Uma curiosidade... como queríamos que a pintura da peça final não tapasse completamente o papel por baixo, escolhemos dois livros que tínhamos cá por casa, com uma cor de página amarelada que sabíamos, iria enriquecer o edifício: o grande "Viagens Na minha terra" de Almeida Garrett (por termos dois, há muito que utilizamos ás páginas deste exemplar para os trabalhos de ilustração... sim... eu sei.... um pecado), e com uma ironia intencional, o livro "Os médicos malditos" de Christian Bernadac, que relata experiências médicas em seres humanos nos campos de concentração nazis... um livro que me chocou tanto há uns anos atrás, quando o li, que decidi utilizá-lo neste trabalho, convertendo uma carga brutalmente negativa em algo tão positivo como uma Árvore do Amor. De chumbo para ouro. Que me desculpem os amantes dos livros (nos quais me incluo com todas as minhas fibras), mas não resisti à magia desta alquimia inesperada.














Capítulo Doze

Com as cores de um arco-íris, talvez até mais

Após um milhão de horas a colar pedaços de livros, e de já não sentir as mãos de tantas camadas de cola na ponta dos dedos (e é tão bom retirá-los... é bom para os nervos ver grandes películas de cola a saírem dos dedos... experimentem... melhor do que explodir bolhas em plásticos de protecção ou fazer ponto-de-cruz), chegou a hora de pintar a peça. Primeiro de branco, com um primário propositadamente mal aplicado para não tapar completamente o que estava por baixo, depois as janelas, com muitas cores contrastantes. Este é um prédio onde vive um povo que se ama, se tolera e respeita mutuamente. Um mundo em miniatura onde as cores das janelas procuram exacerbar o multiculturalismo e a multirracialidade, enquanto verdadeira riqueza de uma qualquer comunidade. No fundo, foram as diferenças e a miscigenação que nos tornaram uma espécie tão resiliente, forte e adaptável e acima de tudo, tão rica. É pena, nos dias de hoje, haver ainda tantos seres humanos e defenderem exactamente o contrário. History repeats itself.











Capítulo Treze

As telhas! As telhas!...

... teria dito Joseph Conrad, se em vez de escrever o magnífico "No Coração das Trevas" tivesse feito uma coisa destas. E ainda bem que não lhe passou uma ideia parva dessas pela cabeça. Telhas por todo o lado. Pequenas placas de cartão canelado, com um dos lados arredondado como se fossem escamas, e previamente pintadas (as telhas que confrontaram com os limites das coberturas, evitando deste modo que uma pintura posterior com vermelho sujasse as paredes já pintadas). No final, pintámos com um pouco de preto sobre o vermelho, para escurecer envelhecer um pouco as telhas.




Capítulo Quatorze

E de novo se fez o velho

Este é um edifício tão antigo quanto o próprio Amor... desde tempos imemoráveis que as suas paredes resistem inabaláveis aos elementos e aos obstáculo, e a todas as forças que se unem para o derrubar. 

Porque o Amor vence tudo.

Um verniz mate com velatura de carvalho tratou de envelhecer e proteger a construção, mas podia também ter sido com betume judaico. As irregularidades próprias do papel maché tornam-se belas com esta patine;







Capítulo Quinze

Dizem por aí que o diabo mora nos pormenores...

... mas é também nos pormenores que reside a magia de qualquer trabalho, o que o torna único e irrepetível. Os últimos dias foram dedicados ao culto da picuinhice: Placas com nomes de rua, guardas de varanda em arame soldado, retoques aqui e ali, um número de porta que é um 8 (mas também podia ser o infinito vertical), alguns estendais e uma nuvem capturada por um condómino do último piso, para regar as plantas.



Capítulo Dezasseis

Com o coração nas mãos, deixei de ter mãos disponíveis para tirar fotografias

A partir daqui, como fim do prazo para terminar este projecto foi se aproximando cada vez mais rápido, não consegui tirar mais fotografias por falta de tempo. Contudo, o último dia foi passado em duas tarefas importantes:

a) Uma primeira, onde ensaiámos as posições dos ramos nas quatro fachadas, tendo em atenção o equilíbrio, a harmonia e a beleza do conjunto. Estas posições dariam origem a marcações no eixo central de madeira - feitas com uma vara suja de tinta na ponta -  que serviram como pontos de referência para fazer os respectivos buracos com uma broca de 20 mm. 

b) A tornar os ramos que cortámos de um arbusto selvagem (o qual penso que até agradeceu a poda inesperada) mais belos e mágicos do que já eram, pintando-os, forrando-os com lã de várias cores e pendurando-lhes guizos, corações e estrelas feitas em massa.



Capítulo Final

Um orgasmo

Se tivesse que descrever todo o processo, e o final, numa só palavra, seria essa mesmo... um orgasmo.  Não o sexual, apesar do aspecto fálico do edifício. Falo de um orgasmo, num sentido mais.... esqueçam... não vou conseguir explicar. E como qualquer orgasmo que se preze... é um momento espectacular, mas a viagem ainda o é mais. E aqui, é mesmo a viagem que nos deu um prazer imenso. 

O resultado, esse é apenas uma consequência. Nada mais. Nada menos. A viagem... essa sim é o que nos interessa. E esta foi uma viagem e tanto.


Quanto ao resultado...



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