quarta-feira, 10 de abril de 2013

De tanto bater, agora o meu coração bate ainda mais forte



3 meses se passaram desde que o meu coração me trocou as voltas (curioso... Lembrei-me agora de um velho ditado árabe: "queres ouvir Deus dar uma gargalhada? Conta-lhe os teus planos!").



Durante este período (re)aprendi o Tempo. Não o tempo linear e euclidiano. Esse existe só nos livros. Falo do Tempo emocional, relativo, que Einstein no seu modesto bloco de notas tão bem intuiu, ainda que subindo a montanha do conhecimento pelo trilho da ciência. Este Tempo não é matemático. Nele não se somam e subtraem segundos, minutos, horas, dias, anos. Sendo uma dimensão não euclidiana, comprime-se ou dilata-se ao ritmo do nosso coração. Divide-se na resiliência da esperança. Multiplica-se na fraqueza e na fragilidade. Subtrai-se na delicadeza e raridade dos instantes de pura felicidade. Soma-se na desesperança dos momentos menos bons. Este ritmo obedece apenas a uma única regra... O Tempo de um momento é directamente proporcional ao quanto esse momento é agradável ou desagradável. É essa a suprema ironia da vida: os instantes mais intensos e mágicos da nossa vida são os mais fugazes e efémeros, mas são também aqueles que nos mudam para sempre. Trágico e belo.

Agora que penso melhor nisso, acho que vou reformular a frase com que iniciei este post...  Uma eternidade se passou desde que o meu coração me trocou as voltas

90 dias em casa, onde nada pareceu acontecer e no entanto, agora que olho para trás, tanto aconteceu. E como tudo o que é realmente importante ao coração é invisível aos olhos, muitos desses "eventos" ocorreram a um nível profundo, visceral, indizível. Não tentarei aqui sequer descrevê-los até porque não conseguiria. Não tenho a musculatura poética que me garanta o sucesso dessa demanda. Tudo o que me resta é naturalmente deixar que isso se reflicta naquilo que faço, naquilo que pinto.



No entanto, alguns desses acontecimentos nada tiveram de invisível. Falo do meu novo livro, com texto de Luis Sepúlveda, um dos meus autores sul-americanos preferidos, com quem muito me orgulho trabalhar. Chama-se "História de um gato e de um rato que se tornaram amigos", e fala da alquimia dos afectos e do poder redentor dos laços invisíveis que a todos nos unem. Nada poderia ser mais apropriado num momento em que o Centro de Mim vacilou. Este livro foi, em muitos aspectos, um farol, uma tábua de salvação (e não o são todos os livros que nos tatuam?). Ocupou-me e acalmou-me a mente, habituada que estava a andar à velocidade da luz. Focalizou-me no essencial. Divertiu-me. Deu-me um propósito diário. Manteve-me a salvo da escuridão que por vezes se imiscuiu dentro de mim. Não foi um parto nada fácil. Nada mesmo. Houve momentos em que tive muitas dúvidas se o conseguiria terminar. Valeu a infinita paciência da Porto Editora - que se mostrou sensível à delicadeza do momento que estava a atravessar - e, muito especialmente, ao apoio incondicional de Ana Luisa Calmeiro, da Divisão Editorial Literária, que sempre acreditou em mim, mesmo quando nem eu mesmo já acreditava. As suas frases e imagens motivacionais ao início de cada dia foram para mim a adrenalina, a dopamina, a cafeína e a endorfina necessárias para a percorrer a última milha, que como todos sabemos é sempre a mais difícil.


Agora que terminei o livro, cumpre-se uma vez mais o ritual de desapego, de desprendimento do livro. Aos poucos, ele deixará de ser meu e passará a ser de todos vocês que o folhearem. Um processo que terá seu términos no exacto momento em que o livro estiver impresso.


Esta é a sinopse do livro: 

"Max vive em Munique com os seus pais e irmãos — e com Mix, o seu inseparável gato preto com uma mancha branca na barriga. Amigos desde a infância, quando Max cresce e decide mudar de casa, leva Mix consigo. Mix adora viver no novo apartamento. Mas quando Max começa a trabalhar e não pode estar tanto tempo em casa, Mix, que está a envelhecer e a perder a visão, sente-se cada vez mais sozinho.
Um dia, Mix ouve uns passinhos suaves vindos da despensa e descobre que há um ladrão a comer os cereais crocantes do dono. Esperto, Mix deixa-se ficar quieto e, de repente, com a rapidez de outros tempos, estica a pata e sente o corpo trémulo de um minúsculo ratinho. Mex, como é batizado, é um ratinho mexicano, muito medroso e charlatão. Mas os verdadeiros amigos apoiam-se um ao outro e juntos aprendem a partilhar o que de melhor têm dentro de si.
Baseado num episódio da vida de um dos filhos de Luis Sepúlveda, a História de um gato e de um rato que se tornaram amigos oferece-nos uma vez mais uma fábula singela e divertida sobre o verdadeiro valor da amizade. "




E o melhor de tudo?

Agora, depois de todos os exames que voltei a fazer, sei que está tudo bem com o meu coração. E que bate mais forte do que nunca.







4 comentários:

a.mar disse...

Eu não acredito em deus, mas sem dúvida que no teu templo sagrado houve um sismo para te lembrar que é frágil e que precisa de cuidados. Foi um aviso da vida do corpo. Não te esqueças quando fores na tua alta velocidade: nas pequeninas velocidades há muito mais tempo para observar a imensidão que temos disponível para sentir. Para além da adrenalina há a dopamina, a serotonina, a ocitocina e todas as minas transformadoras explosivas do nosso ser.
Bem hajas, Paulo!

a.mar disse...

Essas minas todas que tu também conheces, é claro!

Paulo Galindro disse...

Se conheço, a.mar, se conheço... Engraçado como há tanta gente à procura de drogas poderosas que os elevem ao céu, mas que depois os atiram para o inferno (imagens meramente metafóricas, pois não acredito nem em um nem no outro), e não se apercebem que o nosso corpo produz naturalmente substâncias poderosas que essas mesmas drogas simulam, sem os efeitos secundários das mesmas.

Sandra disse...

Parabéns pelo seu novo trabalho.
O parto foi difícil mas ao primeiro olhar...tornou-se inspirador e cativante. Já tenho vontade de comprar o livro.
Seja bem vindo,

Sandra Couto

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