sábado, 30 de janeiro de 2016

Um livro com asas e radar







Quem me conhece sabe que há uns meses que estou a passar por um momento interior muito complicado. No meio deste ciclone no centro de mim, aquilo que mais gosto de fazer tem sido a minha redenção diária. Por vezes nem sei como o consigo fazer... é muito difícil criarmos algo que seja bonito (à falta um melhor adjectivo) quando por dentro não nos sentimos assim e a vontade / capacidade de o fazer é nula, ou pouco menos do que isso. Mas estas coisas são como no surf - um desporto que em mais coisas do que possam sequer imaginar, é uma metáfora da vida - uma vez passada essa zona de rebentação inicial, tudo acaba por ser (aparentemente) mais fácil. E no fim, nem sequer sei como o fiz. É como aquelas situações em que conduzimos um carro, e quando chegamos ao destino, descobrimos atónitos que não nos lembramos da maior parte da viagem. 
Este livro foi de facto um dos medicamentos diários que me tem mantido na luz nos últimos tempos, o que não deixa de ser maravilhosamente irónico, pois este não tem uma única cor no seu interior. Olho para trás e tudo me parece difuso, desfocado, irreal, mas o que é certo é que vem aí mais um filho feito de letras, papel, cartão, cola e carvão. Muito carvão. Um material que nunca tinha experimentado antes, que não me podia ser mais próximo, não fosse o meu nome completo Paulo Jorge CARVÃO Galindro. Sim... foi da minha mãe - que há uns meses atrás se fundiu com o universo - que herdei um material de desenho no nome, e foram precisos 45 anos para prestar a devida homenagem ao meu apelido materno.É como se de algum modo, a minha mãe me tivesse guiado a mão. Não foi tarefa fácil... o carvão é de facto um material belíssimo, delicado, mas que é extremamente sujo e tendencialmente caótico. Mas o pior de tudo, meus amigos... o pior de tudo são os sons que este material produz, muito especialmente o esfuminho. Para quem não sabe, o esfuminho é uma ferramenta de desenho feita da papel, e que serve para suavizar os traços de carvão, para fazer degradés e cinzas subtis. Só de pensar nisso, todas as pilosidades do meu corpo se eriçam, e uma corrente de arrepio me atravessa a espinha. 
É.. vem aí mais um livro bébé. O seu esqueleto feito de letras, materializado por palavras e amaciado por frases, foi totalmente moldado pela Carmen Zita Ferreira. A sua pele, feita do mais puro carvão, daquele que nos suja / purifica a pele e a alma, é da minha autoria. O parto, que aconteceu ontem algures numa gráfica, ficou a cargo da editora Trinta Por Uma Linhacom o auspicioso e belíssimo número ISBN 978-989-8213-97-6.

E obrigado Valter Hugo Mãe, pela honra e simpatia das tuas palavras, com as quais nos apadrinhaste o livro. Uma imensa honra e inesperada que me tirou as palavras. 

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