domingo, 6 de março de 2011

"Neptuno Infinito" de João Carlos Lages

"Last, but not least", a última das 4 histórias finalistas do Concurso de Escrita Hipercriativa. O prazo para a vossa votação é o dia 31 de Março. Serão contabilizados os comentários neste blogue, e os "Gosto" no Facebook. Boa sorte!



Neptuno Infinito

É verdade.

Soube-o logo desde a primeira vez que te vi. E tu não porque andavas muito distraída a recolher búzios para a tua requintada colecção do MAR. Gostei infinitamente de ti.

Há coisas que demoram tempo a congeminar com outras para se tornarem … coisas com importância.

A doença que a História enferma já se locupletou à nossa custa, o que, para ser muito sincero, não me conserva lá muita felicidade.

O que importa?

É que tu existes, estás e és.

É que eu existo, estou e sou.

A colecção, a colecção, a colecção… a colecção?

Estamos cúmplices de um acto de sabotagem recíproco onde ainda não foi concretamente apurado quem disparou primeiro. Se tu. Se eu. Ou ainda… se alguém levou mesmo algum tiro.

O meu desejo é maior que o tempo e não me importo de esperar porque, vá para onde for, nunca me separarei de ti. Desde o início dos tempos, dos primórdios que a Natureza concede à alma a oportunidade de se encontrar com a sua congénere.

A vida não é mais importante que isto.

A vida foi um passeio à noite.

Numa noite de Verão, que só por ser de Verão, já faz com as paredes exteriores das casas e as fachadas dos prédios, o trânsito, as pessoas, a multidão, o barulho… pareça muito mais encantador. Nem as primeiras palavras ela disse. E o segredo de que é portadora, esse, largou o repouso e entregou-o a mim. Está cansada, triste e tem medo. Recolhe-se, uma vez mais, em longe.

Ela grita “é o fim, é o fim”.

Vive-se cada vez mais depressa num estado de letargia profundo e a cor de todos é o preto.

Nunca te deixarei. Não é uma promessa. É um destino, percebes?

Não há nada a fazer. Não podemos fugir um do outro. Eu pertenço-te. Sim?

Isto é uma viagem pelo tempo. Dura aqui e durará depois lá, mais tarde. Mas durará sempre.

As intenções são supérfluas. As palavras carregam um significado remoto do sentir.

Vale a pena pensar em ti.

A ausência não é ausência em nós. É distância.

Um dia tu chamas-me e eu apareço.

Tu levas-me e eu vou.

Tu pedes-me eu faço.

Dás e eu retribuo.

Apaga-se e acendemos.

Eternamente.

Feliz escolha a do marujo, que se abeirou da humilde criança e lhe sacrificou a guloseima em troca dos segredos de Neptuno. Mostrou-lhe o mar e o catálogo. Ela escolheu e levou o búzio cantante, que soprava ventos angelicais, sons e melodias que não há. E o capitão da barra levou-a então ao mar alto para de lá verem o farol.

Sempre do teu lado,

A navegar até ao outro porto


João Carlos Lages

27 comentários:

j paula ferreira disse...

Muito,gosto muito :)

Maria dos Anjos disse...

Gosto especialmente deste bocadinho:

"A ausência não é ausência em nós.

É distância.

Um dia tu chamas-me e eu apareço.

Tu levas-me e eu vou.

Tu pedes-me eu faço.

Dás e eu retribuo.

Apaga-se e acendemos.

Eternamente."

É lindo!!! Não sabia que os advogados também sabiam escrever contos... pensei que só percebessem de leis. Não os via como gente sensível... Traumas!!!
parabéns!

Nina disse...

Existes.
Estás.
E és.

Adorei.

paula disse...

Lindo, adoro este desde sempre!

Maria João Amaral disse...

Sabes que não preciso de te dizer nada!
Tudo o que te possa dizer é o que já sabes: "Sempre do teu lado, A navegar até outro porto."
Simplesmente maravilhoso...
Simplesmente Tu!!!

Anónimo disse...

Uma forma de escrever bastante peculiar e criativa! sem duvida um conto muito interessante..por instantes senti me novamente criança!
gostei muito! parabens!

sonhadora triste disse...

João,

surpreendes-me pela magia das tuas palavras. Adorei ler-te. Um beijo com saudades da "nossa" terra.

anabela disse...

Lindo.... Não te sabia tão sensível, querido amigo e companheiro de uma infância feliz... Beijinhos

anabela disse...

Lindo! não te sabia tão sensível, querido amigo e companheiro de uma infância feliz... Beijinho

manuelagonçalves disse...

"O meu desejo é maior que o tempo e não me importo de esperar..." soberbo!! gostei muito, mesmo.. uma escrita que consegue ser intensidade e leveza numa perfeita combinação.. parabéns!!

Anabela disse...

Fiquei a pensar no que estava a ler...e tudo fazia sentido!

Patricia disse...

"É hoje que quero deixar uma marca minha, é hoje que quero deixar sinais de mim espalhados no que escrevo… não quero uma passagem, quero ficar."

Hoje deixas, hoje ficas...hoje é agora e depois...Lá

ComAlma disse...

gosto muito
adorei ler

Gustavo disse...

Muito bom João, gostei (:

Guilherme disse...

Gosto! Continua assim :)

José Carreto disse...

A história revela grande criatividade em linguagem poética com um fio condutor do "eu" e do "outro" como uma finalização retributiba muito bem conseguida

Maria Conceição disse...

Neptuno Infinito é o amor em estado puro, a perca, a partilha, o esperar... e não morrer

Inês Silva disse...

Parabéns em duplicado Jay-C! ;)

Bella disse...

....e foi assim mesmo, ontem, hoje e quem sabe amanhã....

Forte e autentico...Gostei.
Parabéns João

Antonio disse...

Excelente, meu caro. Os meus sinceros parabéns!

Teresa disse...

A perfeita materialização de um sentimento! Parabéns,João!Adorei.

Sandra Nunes disse...

Achei lindo...parabéns!!!!!

Pedro Antunes disse...

Lindo, simplesmente.
Só nós é que podemos dar a verdadeira importancia ás coisas, e não ficar é espera... que algo aconteça.
Parabéns João

Anónimo disse...

Após a leitura do texto apercebi-me que temos apenas uma hipótese de viver...e que o devemos fazer da forma mais intensa possível...
Fiquei com uma ligeira sensação Dejá vú...onde foi que já VIVI isto...o que não deixa de ser enternecedor...consegui através das tuas apalvras voltar a atrás no tempo e recordar...
O resultado?
Um anorme sorriso no rosto e a sensação de tarefa cumprida...BEM cumprida!
Um beijo
MBones

Anónimo disse...

Após leitura do texto percebi-me ue a ida é uma viagem na qual apenas podemos comprar o bilhete de ida...perdendo o comboio....acabou...
Tenho assim a certeza que devemos viver da forma mais intensa e preenchida possível...garndes amores, grandes viagens, pequenos atritos, desgotos desamores dores, sorrisos...bem...tudo a que temos direito...e mais importante ainda viver sem arrependimentos...ou pelo menos tentar que assim seja...
O teu texto deixa me com uma sensação de Dejá Vú maravilhosa...pelo mero facto de ter sido levada a visitar tempos idos...as palavras fazem isso...revisitei um pedacinho da minha "estória"...
Resultado? Um enorme sorriso pintalgado de uma grande e sonora gargalhada...de orgulho...sem preconceito... :)
Um beijo e um coração cheio de alegria,
MBones

Anónimo disse...

simplesmente fantástico

Saozinha Lages disse...

é muito autêntico. é intenso. é um tiro certeiro. eleva-nos e aproxima-nos. merecia uma ilustração

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